Revendo Jurassic World

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Se este “Jurassic World” de 2015 acerta mais do que as duas sequências anteriores, muito se dá pela sua relação, em como ele observa e dialoga com o original de Spielberg. O parque é visto (e experimentado) pelos frequentadores da mesma forma que o espectador olha para o filme de 1995. Não há mais inocência, não há mais a pureza da descoberta, o publico (o personagem e o que assiste ao filme) já conhece tudo aquilo (“no one is impressed by a dinosaur anymore”, diz a diretora logo ao início, para depois compará-los a elefantes). Restam as histórias, resta o merchandising, resta a vontade de querer (re)experimentar o que já foi de uma maneira mais intensa. E assim é desenrolada uma dialética de metalinguagem, não só de seu universo, mas das franquias e continuações hollywoodianas, que mesmo em menor perspicácia me remete a Wes Craven.

“Precisamos de mais dentes”, diz o menino Gray, uma frase que é repetida em vários momentos do filme, quase um leitmotif sintetizando o conceito de capitalismo selvagem que norteia tanto o parque — seus criadores sempre buscando uma hipertrofia de suas criaturas, dinossauros maiores e mais assustadores para que público e patrocinadores sejam atraídos — como as continuações de filmes, que precisam de mais ação, mais estrelas, mais computação gráfica, mais explosões, mais apoteose para manter o público interessado.

É fácil notar que o vilão aqui não é um monstrengo, um frankenstein do período jurássico reanimado pela inocência de um cientista. O vilão é a ganância humana, a falta de escrúpulos — e exemplos abundam, desde o militarista que espreita a oportunidade para usar os velociraptors como armas de guerra, ao dono do parque que incentiva a qualquer custo cientistas a modificarem geneticamente as criaturas para criar novas atrações, passando pelos próprios cientistas que armazenam experimentos desconhecidos com motivos escusos. O próprio mocinho Owen vive em ambiguidade, se declarando contra o uso dos bichanos no campo militar mas dedicando sua vida a um programa de “adestramento” dos mesmos (esta relação controversa renderá boas cenas no último movimento do filme); da mesma forma a protagonista Claire se divide entre a preocupação com a segurança dos milhares presentes na ilha e a integridade do indominous rex, o dinossauro que será futura vedete do parque e cujo abatimento significaria perdas financeiras, de tempo investido, de status.

A ação do filme porém os levará a um movimento conciliatório, o mesmo que o da relação problemática entre os irmãos que visitam a ilha (e por sua vez entre os pais que ficam em casa). Relações disfuncionais, conciliação pela família nuclear, temas caros a Spielberg e que, metalinguística ou não, são respeitados pelo diretor Colin Trevorrow, que segundo o imdb faz aqui seu segundo filme e, devo dizer, se apresenta como promissora opção dentro do cada vez mais medíocre mercado do cinema blockbuster — a forma bem resolvida que os personagens são apresentados, dentro de seus respectivos campos e diretamente inseridos à ação do filme, é herança do cinema de gênero em seu melhor e um ótimo cartão de visita, mas o domínio do tempo, da duração dos planos e decupagem das cenas são essenciais no estabelecimento do suspense e da ação que o filme propõe (nesse sentido a sequência do encontro dos meninos no mini-veículo bola de vidro com o indominous rex é exemplar). Cenas como essa se não sublimam ao menos conseguem redimir momentos menos inspirados, em especial a forma apressada, constrangedora até, que o filme é resolvido.

Se não é uma grande esperança, considero ao menos auspicioso que um filme como este, em plena noção de seu nicho, possua mais aspirações artísticas e ideológicas do que muito filme “de arte” que se faz por aí.

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