Sob o Domínio do Medo.com (sobre “Unfriended”)

 

universal
o glitch no logo da universal avisando o que está por vir

Um filme de terror que se passa inteiramente na tela de um computador a princípio é uma forca estética aguardando para ser apertada, mas se por mais de uma hora ficamos presos ao suspense é porque o diretor consegue equilibrar o suporte visual e o narrativo: a tela não é apenas onde o filme se desenrola (o dispositivo), a tela É o filme. O universo dos fatos que desencadeiam o horror está contido dentro do computador, que aos poucos parece tomar vida própria (varias funções ativadas e desativadas à revelia da protagonista Blaire, que assim como nós está “do outro lado”) e vai se revelando uma espécie de portal entre a dimensão dos protagonistas-espectadores e a de Laura Barns, menina que cometera suicídio um ano antes por conta de um vídeo vazado na rede.

unfriended

Os ingredientes a serem apresentados são limitados: a narrativa é complementada pela abertura de paginas de internet, vídeos no youtube, mensagens de texto, enquanto a parte propriamente cinemática — o movimento, o espaço-tempo — consiste numa conversa em video pelo skype que começa com Blaire e o namorado e logo passa a contar com a participação de outros amigos e com a inconveniência de um “anônimo” que se revelará o agente do terror — físico e psicológico — sem nunca sair do domínio da tela.

Dentro dessa dinâmica, o que fazer com a gramática cinematográfica? Plano e contra-plano, ação e reação, as relações espaciais, tudo é apresentado ao mesmo tempo, numa mesma imagem sem decupagem e edição, isto é, sem a contrução de cenas que basicamente constituem a forma que um filme nos é dirigido/apresentado. Como construir o suspense sem ter o que esconder/revelar, sem relacionar a ação com o tempo? A resposta não me parece óbvia (e pode ter sido fruto de mera sorte), mas a impressão é de que ela está em tudo o que está fora da tela-computador (no caso aqui, podendo ser quadro, campo ou diegese), em tudo o que nós e os personagens não sabemos ou enxergamos e que aos poucos vai sendo negociado. Por sinal, outra resposta pode estar na forma que o tempo é experimentado: não se trata, como alguns disseram, de um “found footage”, o filme reforça a idéia do aqui e agora e a sensação do tempo se esvaindo como areia na ampulheta (por vezes com auxilio de contagens regressivas que funcionam como uma espécie precária de montagem — mas, a bem da verdade, funcionam) parece nos empurrar (de novo, nós e personagens) pouco a pouco a um precipício. Voilá, está instaurado o suspense.

Apesar da relação direta com a tecnologia, “Unfriended” (“Amizade Desfeita”) nos remete a um pré-cinema ou a um universo onde Griffith não existiu, mas de forma milagrosa consegue voltar sem arranhões.

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