A integridade sonora do Low

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Acho que esses sites (especialmente) como Pitchfork, para além do bem de promover muita informação sobre música, criaram nesses ultimos 10 ou 15 anos uma geração que tem uma relação muito analítica e pouco visceral com a música. Devido ao acesso inesgotável, a falta de tempo, a necessidade de se estar inteirado e “cobrir” tudo as pessoas acabam criando um certo distanciamento crítico na hora de experimentar a musica que na minha opinião não é muito saudavel. Os pontos a serem observados para se exaltar (ou não) um disco/música/banda acabam sendo muito pragmáticos (ou programáticos?), bem como o tamanho da fila exige que a posição a ser tomada seja rápida. Aquela idéia de “slow burn”, de obra que vai ganhando força, meio que desaparece. Muito jornalístico, pouco artístico.

Um exemplo que de certa forma ilustra isso são pessoas que conheço que nunca deram um tostão para o rap e hoje colocam gente como Kendrick Lamar em listas do ano, melhores artistas etc — sem querer entrar no mérito de falar bem ou mal, mas apenas um exemplo daqueles que ganharam a coroa de louros da validação cultural e logo precisam ser devidamente apreciados, ganhar a merecida atenção e — mesmo pra quem não se interesse — ser citados pois “catalisam a energia” de um momento.

Do outro lado da poça, e o que vem ao caso aqui no post, temos artistas como o Low. Seu ultimo disco, “Ones and Sixes”, é um petardo, mas não constou em nenhuma lista de melhores do ano. Ones and Sixes não é um disco que “aponta novos caminhos para a música” ou que vai “deixar um legado para bandas que virão”; não “estabelece uma relação com a música moderna” nem com o momento que vivemos.
Ora, às favas com o momento: daqui a um, cinco, dez, cinquenta, cem anos ninguém se importará com esse vínculo temporal, apenas a arte vai ficar. O único compromisso do Low é com o som, seu próprio som, e em duas décadas nada mudou: canções centradas na tensão entre os vocais de Alan Sparhawk e Mimi Parker, instrumentação simples, repetitiva, esparsa e arejada — guitarras ecoam como se gravadas na sala 1 de Abbey Road. Tiveram grandes momentos, tiveram momentos regulares, ruins nunca foram — mas não têm os atrativos a uma geração que precisa da imediata análise cientifica e social, do hashtag, então ficam ali, ganhando aquela nota 7 e passando ao largo à maioria.
E ao largo da maioria passa uma canção como essa, que em sua segunda metade ganha proporções ÉPICAS e provoca nós na minha garganta — uma sensação muito mais importante e nobre do que a que o melhor dos textos pode evocar.

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