Graham Coxon, guitar (working class) hero

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Quando das primeiras audições de “Magic Whip”, último (excelente) disco do Blur, a escolha de “Lonesome Street” como favorita era fácil: é a música que te pega pela mão e leva pra passear pelo disco, é a música que tem elementos reconhecíveis pela trajetória da banda (os riffs, os ecos de Syd Barrett e Bowie, os anos 60 reprocessados pelos 90, o cinismo), é o hit, enfim.

O passar do tempo porém vai fazendo outras músicas revelarem suas prendas e, após um período rendido a “My Terracota Heart” (espinha dorsal de um álbum melancólico e provavelmente a melhor canção de fato das 13), eis que me pego gradativamente apegado a “Go Out”. Estamos aqui em terreno amplamente fertilizado por Graham Coxon. Mais ainda, temos uma amostra do que talvez seria o “Think Tank” com a sua presença — então temos lá uma linha de baixo meio dance meio pós-punk (guardando um certo parentesco com a de “Jets” do citado disco) engolida por guitarras passivo-agressivas, embebidas em café, whisky e anti-depressivos que guiaram os dois discos anteriores (“13” e o homônimo de 97) e vão ganhando a música como uma cobertura que vai sendo lentamente administrada e dando sabor ao bolo. Essas guitarras são mais um documento com três vias autenticadas em cartório do maior guitarrista de sua geração.

Se nos anos 60 e 70 a guitarra viveu seu momento renascentista, com Hendrixes e Claptons explorando cada centímetro da escala, na geração pós-noventista a “técnica” voltou-se ao dispositivo, a criação de sons e busca por timbres a partir de pedais, amplificadores, microfones (e microfonias), à fisicalidade do instrumento — incluindo aí bem-vindas imperfeições sonoras que derretiam os riffs e solos de outrora. O pincel, a tela e a tinta não eram mais apenas artifícios para viabilizar uma obra, a presença deles também tinha de se fazer sentida.

Isso dito, se Graham se destaca dentro deste pós-modernismo das seis cordas é por partir de estruturas extremamente simples e assimiláveis (às vezes assoviáveis até) e aos poucos temperar o arranjo com camadas e mais camadas de sons, chegando por vezes a distorções extremamente agressivas e passagens abstracionistas sem necessariamente assustar o ouvinte casual. Seu gênio está justamente na naturalidade dessas transições e na facilidade de manter esse balanço, e se “Go Out” hoje tanto me fascina é porque pinta tão bem essa paisagem.

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