O Videoclipe do Ano

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Se quisermos entender os videoclipes e sua linguagem, sua importância e posição dentro do ecossistema da produção audiovisual, temos de entrar em acordo que desde os seus primórdios nos curtas musicais dos anos 40/50 até os vídeos direto pro youtube de hoje, passando pelos promos dos Beatles e pelo ápice da forma e exposição com o Thriller de Michael Jackson, do pré ao pós-MTV, os clipes são embrionados e executados com a função de embrulhar e promover uma música, um disco, um artista. Se a palavra é promoção, então – e à revelia do diretor que possa bater o pé e negar até a morte – o vídeo musical está mais próximo do universo da publicidade do que do cinema.

O problema em fazer uma afirmação do tipo é que a publicidade, e não é de hoje, é tida como grande vilã, como sequestradora de idéias e castradora de liberdade artística. A tentativa de fugir de procedimentos e cacoetes que possam trazer a uma obra a pecha de “publicitária” é justamente o que a limita esteticamente: para fugir de um leão, o artista acaba se colocando dentro de uma jaula. Recentemente no cinema temos visto um uso indiscriminado do formato cinemascope não por conta de uma justificativa na encenação, mas por este ser o formato de cinema “por excelência”, o formato “certo” que não renderá questionamentos quanto a integridade do diretor – e assim vemos filmes cada vez mais rendidos a certas regras, acadêmicos e, ironia, publicitários por quererem nos vender uma idéia de “qualidade” por via de princípios estéticos pré-determinados. Por fim, acaba que até mesmo os comerciais já andam sendo constantemente produzidos em “scope” (qual o sentido em exibir um anuncio num formato de tela diferente de uma tv ou computador?). Enquanto não compreenderem e admitirem que a publicidade pode (e deve) ser também uma linguagem articulada – e até Godard já se aventurou por esses terrenos – continuaremos com essa imagem da cobra comendo o próprio rabo.

A relação atual dos videoclipes com sua “consciência artística” não é muito diferente: especialmente após a fase de “empoderamento” com a MTV (onde deixaram de ser uma espécie de videokê dos cantores), os clipes em grande parte passaram a ter ambições (e orçamento) de cinema – roteiro, atuações, sequencias, decupagem de cenas – e por vezes também viraram reféns dele. Em dias de youtube, onde o acesso é irrestrito e não há limitação temporal (muito pelo contrario, quanto mais tempo a pessoa estiver em contato com o vídeo, mais próxima estará de seu objeto), vemos músicos e gravadoras investindo pesado em vídeos longos que são verdadeiros curta-metragens – em 2015 o mais notável deles talvez tenha sido Rihanna e seu Bitch Better Have My Money (que inclusive conta com participação dos atores Eric Roberts e Mads Mikkelsen) – mas que grossa maioria são peças com pouco ou nenhum interesse estético/cênico/narrativo/etc, verdadeiros elefantes brancos visuais. É claro que sempre existirão exemplos do lado oposto, como o Demdike Stare neste Past Majesty (um video com notável interesse em integração total entre a imagem e o som, mais próximo da vídeo arte do que do cinema – ou, se fizerem questão dele, mais proximo de um Kenneth Anger ou Stan Brakhage do que do eventual cinema narrativo que habita o universo dos clipes), mas estamos aqui falando de um artista em plena consciência do que deseja e onde quer chegar com sua obra, em controle integral dos seus movimentos. Dentro desse conceito até mesmo a Rihanna já é uma exceção.

 

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E então chegamos a Drake e seu Hotline Bling. Isso aqui é outra coisa, é um alienígena e um prodígio na produção visual atual – e quando vemos um prólogo com voluptuosas moças num call center, cenário simétrico, meio asséptico, tudo arrumadinho, é quase uma declaração de valores: “olha, essa aqui é a produção atual dos videoclipes e eu tô pulando fora, cês não vão ver mais nada disso”. E lá vem o cara, câmera se aproximando lentamente num plano geral, jaqueta vermelha, dançando devagar num cubículo com fundo todo amarelo. Uma fonte tosca anuncia o seu nome e logo depois um crédito a um “Director x” – o que, mesmo sendo de fato o nome artístico do sujeito, também parece uma sacaneada nos videoclipes de grife e seus super diretores (“o diretor aqui é um qualquer, tanto faz”). Dali pra frente, são basicamente 4 minutos de tomadas do protagonista ensaiando passinhos insinuantes num cenário kitsch-futurista, iluminação sempre acompanhando a cor do fundo (que vai alternando pela duração) e cenografia completamente esvaziada.

Pois bem, o que faz deste o vídeo que rasgou a cultura popular em 2015, gerou mais de 300 milhões de visualizações e catapultou as vendas da música que promove (lembremos, publicidade – e quanto de publicidade podemos atribuir a uma música cujo refrão é praticamente impossível de tirar da cabeça?) é o fato de que ele foi meticulosamente pensado para ser memetizado. É uma obra/peça com plena ciência do momento que vivemos, onde qualquer pessoa em posse de um computador é um gerador de conteúdo em potencial (e um piadista – o humor é parte essencial da experiência da internet), e ela convida essas pessoas a interagirem. Quando chega com um vídeo com uma dancinha curiosa e praticamente sem cenário, Drake está jogando a bola para a internet cortar, e em poucos dias a rede está tomada por pequenos vídeos-resposta-piadas ao original. E isso não só não denigre a sua imagem como a amplifica, porque esse movimento na verdade é o de um diálogo: o clipe não é uma vergonha ou uma “piada pronta”, o clipe é uma piada esperando finalização – uma idéia tão clara que o cantor passa todo o tempo cercado por uma espécie de chroma key.

 

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the zuera never ends
O outro fator que alimenta o vínculo com o espectador é a dança: ao contrário do cinema hipercoreografado de seus colegas, onde vemos super dançarinos com seus movimentos barrocos, inalcançáveis, Drake oferece o corpo a uma coreografia meio desengonçada, meio lenta, meio que sugerindo “ei, voce também pode fazer isso”, pouco importando se pra fazer piada ou pra se juntar a ele. Vários dos vídeos-resposta são de pessoas se inserindo no cenário e imitando os passos do cantor, algumas com precisão, outras completamente desengonçadas: para além da óbvia jaqueta vermelha, o vídeo acena ao de Michael Jackson em seu recrutamento, e de repente somos todos mais uma vez zumbis dançando Thriller. Está fechado o ciclo: música, vídeo e publico estão irreversivelmente entrelaçados.

 

O vídeo original:

 

Compilação de vídeos-resposta:

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