Sobre ir ao Cinema: Dez sessões de 2015

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Em tempos de netflix, torrent, 1080p, séries, blu-ray e tvs 4k, o ato de ir ao cinema por si já é quase um ato de resistência. Por mais que hajam diversos fatores que se tornam obstáculos, desde físicos – o sofá é mais confortavel que a poltrona, ficar em casa é menos trabalhoso do que sair, a possibilidade de “conduzir” a sessão (pausar, voltar, etc) – até socioeconômicos – ir ao cinema cada vez mais incorre num investimento temporal e (especialmente) financeiro – um filme em 2016 ainda é pensado e executado tendo a tela como seu suporte principal. Quando um diretor posiciona uma câmera frente a atores e um cenário, ele (ainda) visiona a amplificação do fragmento de espaço capturado para uma grande tela; a luz, a pele do ator, a nuance de cor, o pequeno ornamento no cenário, todos os detalhes são vitais não por representarem uma “visão de mundo”, mas por serem o mundo que será representado por um momento. Esse mundo, para ganhar a devida autonomia, precisa de espaço, o espaço da tela, que amplia aquela fatia de realidade capturada pela câmera e permite ao olhar o passeio livre por sua extensão. Ao se sentar numa sala escura com uma grande tela, existe uma relação pactual de entrega e imersão a um universo, porque naquele tempo, naquela duração, essas grandes imagens serão tudo o que os olhos enxergarão. Quando experimentamos um filme pela tela de uma tv – ou, em tempos de tablet e até smartphone, qualquer aparelho que limite a imagem a um campo de visão onde os olhos fiquem estáticos, a redução desse campo de visão implica diretamente na redução do universo a uma idéia encapsulada. Quando se “tira o olho” de uma tv e se enxerga qualquer outra coisa que esteja fora dela, há um rompimento imediato na relação com o universo que o filme propõe. A limitação física, as “bordas” mais visíveis na imagem passam a funcionar mais como molduras de um quadro, nos lembrando constantemente da natureza da imagem como simulacro e reduzindo o impacto da proposta e gramática do filme – um close, que numa sala de cinema nos coloca tão próximos do ator que parece nos conectar a sua alma, aos seus sentimentos, numa tv torna-se tão somente uma aproximação de uma imagem.

Como fica, portanto, a relação entre cinema e publico em 2016? A proliferação de séries de tv seria um indício de um espectador mais distanciado, brechtiano, de um cinismo em relação a construção da imagem fílmica e encenação? Ao mesmo tempo, vemos uma geração de neocinefilia ainda interessada nos filmes, na história do cinema, porém crescida em dieta do “encontrou um rip bom?”.

Não se trata de ser contra, acho ótimo podermos ter em casa acesso a um sem número de filmes; ver e rever quando e quanto quisermos, estudarmos, redescobrirmos; mas isso não pode, não deve nem jamais conseguirá substituir a mágica que acontece naqueles momentos no espaço negativo entre o projetor e a tela. Esta é uma lista de dez destes momentos que me marcaram no ano que passou:

 

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.”Um Dia Quente De Verão” (A Brighter Summer Day), de Edward Yang (35mm):

Provável “evento de cinema” do ano, a exibição deste que é uma espécie de santo graal da cinefilia – um filme de 1991 que até hoje não conseguiu distribuição em home-video (por conta, em meio a eventuais burocracias, de ter sido parcialmente financiado pela máfia Taiwanesa) e cuja única cópia disponível na rede era a de um vhs em formato cortado e com legendas japonesas queimadas. Some os maiores elogios possíveis a uma obra de difícil acesso e pronto, temos uma lenda. Restaurado pela Film Foundation de Scorsese em 2012/2013, finalmente chegou até nós em uma linda cópia 35mm. Quatro horas depois, a lenda vira fato. “Print the Legend”.

 

adieu

.”Adeus a Linguagem” (Adieu Au Langage), de Jean-Luc Godard (dcp):

Não se tratava apenas de uma estréia de Godard, era uma estréia de Godard em 3d numa sala multiplex. Épico desde o momento do ingresso na mão, quando ainda era um detalhe o fato do filme ser absolutamente brilhante.

 

one from the heart

.”O Fundo do Coração” (One From the Heart), de Francis Ford Coppola (35mm):

Poderia ter sido “A Conversação”, filme igualmente grande também visto na retrospectiva completa do Coppola, mas este marcou mais pela magia do ineditismo – e o quão importante é ver em película um filme que, para além das luzes de neon e o clima onírico e claro Nastassja Kinski no ápice da beleza, sugere um retorno ao cinema artesanal da Hollywood dos grandes estudios?

 

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.”Liberdade” (Laisvé), de Sharunas Bartas (35mm):

Estava viajando na ocasião da preciosa retrospectiva integral de Sharunas Bartas, com todos os filmes em 35mm. Cheguei a tempo de duas sessões, sendo a deste “Liberdade” – um filme, como de praxe em sua obra, em que o peso do tempo e da existência é experimentado quase que em completo silêncio – acabou por ganhar como trilha sonora incidental o som, na laje do cinema, da chuva mais violenta do ano em São Paulo. Uma inusitada espécie de acompanhamento de piano para este cinema mudo versão apocalipse.

 

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.”Paixão” (Passion) + “Eu Vos Saúdo, Maria” (Je Vous Salue, Marie), de Jean-Luc Godard (35mm):

Godard em sua fase “pintor”, em sua plenitude estética – “Passion” (meu favorito ao lado de “O Desprezo”), visto pela primeira vez em película numa tela enorme, se não tinha muito mais a provar reiterou uma das luzes mais bonitas da história do cinema. “Je Vous Salue Marie”, também visto pela primeira vez nessas condições, por sua vez foi revelador: se já constava entre os que eu considerava “grandes”, aqui ele se agigantou, para o tamanho da tela que o exibia. Um filme concebido para os céus – a luz que atravessava a película e projetava as imagens na tela era, literalmente, a luz de Deus. Uma sessão de onde saí com a certeza de ter visto o maior filme do mundo.

 

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.”La Sapienza”, de Eugène Green + “Para o Outro Lado” (Journey To the Shore), de Kiyoshi Kurosawa (dcp):

Dois dos maiores diretores em atividade com filmes entrando em cartaz pela primeira vez no Brasil. Dois filmes sobre reencontro e reconciliação que, ainda que por vias contrárias, têm como linha de chegada a celebração à vida. Viva.

 

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.”Visita ou Memórias e Confissões”, de Manoel de Oliveira (dcp):

O primeiro e último filme a ser lançado após sua morte. Sensação estranha. O começo pelo fim: rodado em 1982, é um filme-testamento (Manoel ali tinha 73), onde através de uma visita à casa onde morou por 40 anos projeta lembranças e faz dela um museu – dele, de sua família, do cinema e da própria casa, que só existirá dentro do filme. Só autorizou a exibição para depois de sua morte (e o destino nos reservou a honra de tê-lo vivo e ativo por mais de 30 anos), um gesto de grandeza e humildade, de entregar ao cinema um pedaço de sua existência, mas só quando ele não mais existisse. Um filme de fantasmas (mas não o são todos?), um olhar poético sobre a vida e a morte que também permeou sua obra a partir dali, principalmente nos últimos anos. Emocionante.

 

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.”O Show Deve Continuar” (All That Jazz), de Bob Fosse (35mm):

O anúncio falava em restauração, mas foi exibida uma cópia de arquivo, meio avermelhada. Pouco importou – quando dos primeiros acordes da versão de “On Broadway” de George Benson, que abre o filme, me peguei batendo os pés no chão. Dali por diante estava entregue – o cinema parecia igualmente contagiado. Devo dizer, foi uma sessão daquelas onde um bom filme transcende e ganha o status de obra-prima. Hollywood no ápice de sua modernidade – e não surpreende que este tenha chegado pelas mãos de um coreógrafo. Primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi procurar o recém-lançado blu-ray da Criterion.

 

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.”Cavalo Dinheiro”, de Pedro Costa (dcp):

Contra todas as probabilidades, consegui uma sessão depois de tê-lo perdido em dois festivais. Filme de encruzilhadas, fantasmagórico mas materialista, onírico mas consciente, dramatúrgico mas documental. Partindo do imaginário de Fontainhas, sua Monument Valley espiritual, chega mais uma obra triunfal do mais relevante cineasta deste século. Imenso.

 

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.”Ja visto jamais visto”, de Andrea Tonacci (dcp):

Conseguir ver este filme, tão distante do que hoje se produz e pensa em termos de cinema no Brasil, numa sala do tamanho da do Cinesesc já é uma causa a se celebrar (mesmo que na sessão só houvessem 5 presentes – eu incluso). É reconfortante saber que no país ainda se faça cinema que instiga, confunda, maravilhe – ainda que por um diretor que já está na ativa há mais de 4 décadas e seja o responsável, há quase dez anos, pela sua última reinvenção estética – e que esse cinema ainda encontre recepção, mesmo que mínima. Caminhamos, reforçados.

 

+BONUS

scuola grande

A visita a Scuola Grandi Di San Rocco, em Veneza, integralmente composta por pinturas de Tintoretto, dos maiores da Renascença, que por duas décadas se dedicou ao projeto. São quadros e afrescos a óleo que formam um ciclo narrativo da bíblia, do velho ao novo testamento – cinemascope e technicolor antecipados em alguns séculos, narrativas visuais intrincadas que inovaram em composição, luz, cor e perspectiva, mas principalmente que adiantaram a representação dramática do ser humano, já tomado por ansiedade e questões existenciais, que viria a ser característica marcante do período barroco. Uma experiência visual tão marcante quanto a mais arrebatadora das sessões de cinema.

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