Live, Tonight, Sold Out: Os Melhores Shows de 2015

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Ride no Victoria Park

O disco, o single, a música gravada são a eternização de um momento que na verdade é a culminação de vários “momentos” combinados – a captura de uma nota executada muitas vezes é adicionada de outras capturas, efetuadas em outro tempo e até outro espaço, retrabalhada numa sala de mixagem, levada depois a uma sala de masterização. O trabalho de gravação de uma música consiste na planificação dessas várias camadas de tempo numa só, definitiva. Esculpir o tempo.

A apresentação ao vivo, por sua vez, tem um conceito praticamente oposto: é uma transiente temporal, é a celebração do efêmero, de um momento que invariavelmente vai ficar pra trás e não poderá ser repetido – dois shows de um mesmo artista, no mesmo lugar, com a mesma platéia, nunca serão iguais, porque o tempo ali experimentado é a junção de uma infinidade de particularidades que vão influenciar diretamente em sua percepção. Talvez por isso o conceito de “disco ao vivo” seja tão pouco interessante – o “show gravado” está mais para uma lembrança, um souvenir (mesmo que de algo que não se tenha presenciado), do que para uma idéia de obra.

Assim sendo, uma lista de “melhores shows” é naturalmente uma lista mergulhada na maior das subjetividades (por mais que tentemos organizá-la da forma mais cognitiva), porque se no momento a experiência já está atrelada a tantas variáveis, a posterior avaliação se baseia estritamente na memória e processos afetivos e intuitivos.

Salvaguardas feitas, estes são portanto os melhores – enquanto mais significativos, mais emocionantes, mais divertidos, mais prazerosos, mais um monte de outros parâmetros concebíveis – shows que assisti em 2015:

Dez menções honrosas, sem preferência:
.Clark
.Thee Oh Sees
.Einstürzende Neubauten
.Earth
.Wu-Tang Clan
.Jon Hopkins
.Underworld
.Juan Maclean
.Viet Cong

.Iceage

 

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10) PATTI SMITH

Terceiro (e mais apoteótico) show desta senhora que vi em uma semana, comemorando e tocando na íntegra um disco seminal na cidade que, palavras da própria, o melhor acolheu. Acredito que esse movimento de mergulhar de cabeça num disco específico (como tem acontecido nessas turnês de aniversário) faz o artista rejuvenescer, de modo que nesses shows vi uma Patti Smith (e banda) muito mais radiante do que há 10 anos.

 

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9) SLEATER-KINNEY

Depois do show, minha vontade era voltar umas horas para o momento em que cruzei com a Carrie Brownstein e tascar-lhe um abraço apertado de gratidão. Se é que eu tinha dúvidas, naquele palco cristalizou-se o quanto ela e a banda flutuam muito acima de qualquer conceito besta de “banda de meninas” que os anos 90 tenham tentado nos empurrar. Alias, antes disso até: o Sleater-Kinney faz uma banda como as Runnaways parecer as paquitas.

 

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8) SPIRITUALIZED
As sonoridades, timbres e vibes são parte integrante das músicas do Jason Pierce – e aí não sei se é causa ou consequência disso o fato dele ser completamente neurótico com o maquinário (instrumentos, pedais, amplificadores etc) – portanto, por mais que o show acústico de São Paulo tenha sido bonito, considerei esse aqui como meu primeiro show de fato do Spiritualized. Uma pequena metáfora visual: as últimas letras do chassi de um amplificador Marshall foram retiradas, de modo que a palavra a ser vista na caixa passasse a ser MARS. Eu virei astronauta.

 

 

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7) SUNN O)))
Vrrrrruuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmmm. E o tempo entrou em suspensão, e a propagação de sons substituída por vibrações apenas. Guitarras usadas para causar tremores no peito, como suspiros vindos das profundezas. E fumaça, muita fumaça. Em certo momento um vocalista sobe ao palco, se movendo como o Nosferatu de Murnau e emitindo vocalizações guturais em línguas extintas. Vejo uma moça ao meu lado escrever no celular para uma amiga: “estou ficando com vontade de matar uma cabra”. Caio na risada, mas no fundo e mesmo em piada ela tem razão: perto do Sunn 0))), qualquer banda de metal parece brincadeira de adolescente espinhento.

 

 

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06) THE REPLACEMENTS
Sabe do que se diz por aí sobre as apresentações antológicas de Paul Westerberg e banda, ou aquele papo clichê do artista que se “entrega no palco”? Pois então, é tudo verdade. Repertório à parte (e que repertório, amigo, todas “aquelas” estavam lá), em termos de perfomance os Replacements são o que de mais próximo pode se chegar do Clash. Daquelas noites em que se sai gritando “Rock n’ Roll!” sem medo de soar ridículo.

 

 

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5) SWANS

Um show dos Swans é como um show do Neil Young e Crazy Horse sem a parte das canções. Foram quase 3 horas de um massacre de amplificadores, Michael Gira como um maestro regendo o caos, sons inomináveis ecoando pela sala – e o fato de ter ocorrido em um teatro com ótima acústica, esse ambiente controlado parece ter só contribuído com a propagação do descontrole. Taí algo que dá pra se chamar de “transgressor” em 2015/16.

 

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4) CARIBOU

Não sei quando essa transição se concretizou, mas este show foi um testamento do Caribou não mais como “projeto de Dan Snaith” mas como banda completa e consagrada – e uma banda maiúscula, daquelas que a unidade sonora é latente; curiosamente a identidade visual parece querer reforçar essa idéia, com o desenho de palco colocando os integrantes em proximidade, todos vestidos de branco, quase um culto, reforçado aqui pela participação de Owen Pallett. Em vários momentos pensei na banda e no clima como o de um LCD Soundsystem lisérgico – e portanto ainda mais interessante.

 

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3) SUN KIL MOON
Um show no Barbican, pra quem não mora em uma cidade que tenha um lugar como este, já é um evento por si. É como uma Sala São Paulo melhorada e sem contornos elitistas, voltada para todo tipo de evento. Um show do Sun Kil Moon, ao contrário do que se pode deduzir, não pede um lugar “aconchegante e intimista para voz e violão”, nada disso. Aquelas músicas que transitam por memórias e fantasmas de forma tão vívida precisam ter a voz de Mark Kozelek ecoando pelo espaço, por um grande espaço; precisam do tempo de reverberação para ganharem corpo. E a banda, que grande banda, discretamente acompanhada ainda por Neil Halstead (aqui mais perto do Mojave 3 do que do Slowdive) na guitarra, tocou algumas musicas de “Universal Themes” (disco lançado naquele dia) mas centrou o repertório em “Benji”, o que garantiu muitos nós nas gargantas (por vezes desfeitos pelas piadas auto-depreciativas de Kozelek entre as musicas) dos presentes.

 

 

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2) CAETANO VELOSO E GILBETO GIL

Sentado numa dessas casas de espetáculo da Marginal Pinheiros, esperando o show começar rodeado pela família tradicional paulistana, temi por um clima celebratório, uma daquelas comemorações que só visam martelar o prego da “genialidade”, um show do Roberto Carlos enfim. Mesmo jogando pra torcida várias vezes, felizmente esse encontro passou longe disso, inclusive no repertório escolhido – e um dos melhores momentos ter sido Gil em “Não Tenho Medo da Morte”, música que eu nem conhecia, é prova de que estávamos (nós e eles) imunes ao raio canonizador. E como a voz de Caetano e o violão de Gil só melhoram com o tempo, e como é bom ver boa parte do que de relevante se fez na música, na arte e no comportamento brasileiro nos últimos 50 anos refletida ali naqueles dois sorrisos. Inesquecível.

 

 

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1) RIDE
Uma banda fazendo o primeiro show grande em 20 anos na cidade que a consagrou poderia transformar tudo em um festival de nostalgia e auto-indulgência, mas ao contrário de outros “retornos”, o Ride chegou com a vontade de uma banda iniciante querendo mostrar seu repertório a um novo publico, talvez até mais vibrantes do que quando eram de fato pós-adolescentes em ascensão. Amplificadores no talo, timbres perfeitos, banda afiada, público consonante, tudo aquilo que compõe o que a gente chama de “um grande show”, mas o que aconteceu naquele dia em Londres foi um algo mais, aquele algo mais que traz a um momento o elixir da eternidade. Num dado momento tive um devaneio: eis uma banda que ali, em meio a um show, finalmente se dava conta de sua capacidade, de seu tamanho; em cima do palco ela alcançava sua plenitude, como um jedi descobrindo a Força.

Ao fim do show, saindo do palco abraçando todos e meio em prantos, Mark Gardener falou que aquele fora “o melhor dia de sua vida”. Alguns podem ter achado que era demagogia, crowd-pleasing ou sei lá o que, mas o que sei é que na semana anterior, quando os vi em Barcelona, isso não aconteceu. Não era teatro – algo mágico de fato se deu ali.

 

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