Os 25 Melhores Filmes em Cartaz em 2015

Não sei se 2015 foi um ano onde as distribuidoras brasileiras se mostraram mais interessadas, se foi uma demanda do público, se o mercado diversificou-se (permitindo a saudável entrada de distribuidoras de filmes “menores” como a brava Supo Mungam) ou se foi um período ímpar em termos de produção cinematográfica; o fato é que este foi, de longe, o melhor ano de estréias desta década – o que me permitiu fazer uma lista de 25 filmes com alto “fator de revisão” (todos os filmes citados foram vistos no mínimo duas vezes) e ainda deixar alguns outros que achei igualmente interessantes de fora.
Seguem, portanto, os escolhidos:

 

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25. Jurassic World (Colin Trevorrow)

Comentado AQUI

 

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24. Três Lembranças de Minha Juventude (Arnaud Desplechin)
Assim como seu personagem alter-ego, existe sim uma certa afetação estética característica dos filmes de Desplechin, mas que é superada pela vitalidade na caracterização da infância/adolescência e no posterior rompimento do personagem com sua juventude – movimento que reflete a própria posição do diretor em relação a seu cinema. Um belo filme de crise.

 

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23. Taxi Teerã (Jafar Panahi)
Depois dos últimos filmes de Panahi, especialmente “Isto Não é Um Filme”, não dá pra dizer que vemos aqui algum tipo de inovação – mas também pudera, sob prisão domiciliar e proibido de fazer filmes, o diretor encontrou um método peculiar de continuar produzindo, misturando/confundindo ficção e documentário, registro e encenação, filme e filmagem – e o resultado é uma obra sui generis, cheia de humor mas que ao mesmo tempo se volta contra o regime que o detém – sendo a cena da moça das rosas aqui a mais forte desses filmes-prisão até então.

 

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22. A Travessia (Robert Zemeckis)

O equilibrista que caminhou sobre as torres do World Trade Center já havia protagonizado o documentário “Man on Wire”, mas a matéria, de tão cinematográfica, me parece mais apropriada para uma dramatização – comprovada pela sequência da travessia, quase em tempo real, cuja luz, as reações, os enquadramentos, os cortes formam um dos mais bonitos momentos que o cinema proporcionou em 2015.

 

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21. Expresso do Amanhã (Bong Joon Ho)

Distopia Orwelliana (também com toques de Burgess/Kubrick), filme de luta de classes e sociedade em conserva, não é difícil entender a dificuldade que teve em sua distribuição (especialmente dentro do seio dos Weinstein), mas mesmo com todas as interferências que sofreu, temos aqui uma grande fábula social, dirigida com competência suficiente para se sustentar como filme político dentro de um cânone de cinema popular/de gênero.

 

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20. Amizade Desfeita (Levan Gabriadze)

Comentado AQUI

 

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19. Ponte dos Espiões (Steven Spielberg)

Spielberg seguindo com interesse em filmar o homem justo (Schindler, Lincoln) e a construção da reputação de um país, dentro de narrativas que retratam jornadas extraordinárias – valores Fordianos, portanto, e com Ford, Spielberg parece ter aprendido a decantar seu cinema de sentimentalismo didático ou de uma certa euforia militarista, entregando um filme que se posiciona politicamente sem necessariamente tomar partido. Também vale notar a maturidade atingida do ponto de vista estético (o cuidado com cada enquadramento, o clímax de expectativa invertida, tomado por planos estáticos). Seu melhor filme em uma década.

 

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18. Pasolini (Abel Ferrara)

Um filme de Ferrara ser mal visto ou recebido não é nenhuma novidade, mas este tem a peculiaridade da negligência por questões estéticas, por não se tratar de um filme de choque como seu anterior. Talvez o olhar plácido, com certa dose de ternura até, vá de encontro às expectativas acerca da forma de abordar o assunto, mas o fato é que temos aqui um belíssimo filme, que num movimento contrário (e não há como não assinalar que a jogada de subversão está justamente aqui) traz Pasolini da figura polêmica ao ser humano, ao mero mortal.

 

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17. Dívida de Honra (Tommy Lee Jones)

2015 foi um ano notável na revitalização do western, ou numa forma de realizar o gênero, mas o fato é que este filme pode ser considerado como tal no que ele tem de mais essencial: um grupo numa missão indo de um ponto A a um ponto B, com as relações entre os personagens desenlaçadas pelo caminho. Mais do que noção de tempo, enquadramento, luz ou controle dos atores (e ele os têm, todos), o que faz de Tommy Lee Jones um autor é o seu apurado olhar sobre a violência emprenhada na sociedade e na formação de valores do cidadão norte-americano. “Divida de Honra” é um atestado deste olhar.

 

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16. Noites Brancas no Píer (Paul Vecchiali)

“Escuridão, de agora em diante serás minha luz”. E assim, com a tela tomada pelo espaço negativo, Vecchiali faz sua adaptação a “Noites Brancas”, traz o texto de Dostoiévski a um universo quase em suspensão, habitado apenas por aquele dois personagens (interrompidos por vezes por um celular), as luzes que ornamentam e acentuam as forças, o mar ao largo e as palavras, amplificadas – e, consequentemente, amplificando o drama – pelo esvaziamento cênico. A solidão compartilhada.

 

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15. Um Amor a Cada Esquina (Peter Bogdanovich)

É fácil falar de Bogdanovich como um saudosista, um “homem do cinema clássico”, mas quão moderno um diretor deve ser para jogar às favas convenções narrativas ou até mesmo todo um conceito de se fazer cinema em 2015 e entregar um produto com um pé nas screwball comedies da década de 30 (cada corte é uma guinada rumo ao ilógico) e outro na própria consciência de fazer um filme que não pertence a tempo algum – e no meio disso, fazer o filme mais engraçado do ano?

 

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14. Missão Impossível – Nação Secreta (Christopher McQuarrie)

Antes de um filme precisamente coreografado, de gato e rato, até mesmo de um grande filme de super-herói, estamos aqui diante da matéria bruta do conceito Hitchcockeano de manipular as sensações do espectador, de puxar as cordas certas, de tensão e relaxamento (por sinal a formidável sequência na ópera é uma espécie de versão com anfetamina e anabolizantes da de “O Homem que Sabia Demais”). O melhor da série desde o primeiro, de Brian de Palma.

 

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13. A Visita (M. Night Shyamalan)

Shyamalan voltando a explorar territórios onde se saiu melhor: um filme menor, um filme sobre fé. O que o tira da gaveta comum dos “found footages” é a resolução narrativa de ter duas câmeras (a protagonista está fazendo um “documentário”, deixando uma segunda câmera com o irmão), dessa forma ele consegue estabelecer uma relação de espaço e de continuidade temporal – e assim instaurar o suspense por via do controle do tempo, da criação de expectativas (ao contrário dos sustos abruptos que são o único truque que os filmes do gênero conseguem aplicar).

 

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12. Vício Inerente (Paul Thomas Anderson)

Dos 25, este talvez seja o único filme do qual não gostei (por sinal, detestei) na primeira vez que vi. Meses depois, ele começou a se reprojetar em minha memória, as variações de luzes e tons sugerindo algo mais interessante do que aquelas tramas sem saída. É um filme de e sobre Los Angeles, uma espécie de inventário do cinema rodado na cidade, do film noir aos exploitation, dos ensolarados hollywodianos ao cinema experimental de Kenneth Anger, está tudo ali, naquelas cores, naquela luz.

 

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11. Phoenix (Christian Petzold)

As cicatrizes da guerra, as cicatrizes de um país – temática que parece ocupar a carreira do diretor – e sua reconstrução através da remodelação do rosto esfacelado de uma sobrevivente de Auschwitz, num tratamento de roteiro (adaptado de um romance francês já levado às telas por J Lee Thompson) à “Vertigo” bastante adequado a relação com sua atriz-fetiche, Nina Hoss (melhor a cada filme). A “cosmetização” de Nelly em contraste com uma cidade em ruínas é a alegoria de um país que a história ainda não conseguiu dar conta.

 

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10. A Pele de Vênus (Roman Polanski)

O mais delirante na sequência dos filmes de exílio-clausura de Polanski, o filme onde o diretor mais se expõe – Mathieu Amalric, diretor de teatro, é o seu espelho; Emmanuelle Seigner, sua esposa na vida real, a locomotiva que conduzirá um trem descontrolado, que personifica e se mistura com os ideais da personagem que a peça pede da mesma forma que materializa a teia de sexo, poder, chantagem e gênero, valores que sempre acompanharam (e confundiram) sua filmografia e vida pessoal. Uma peça inspirada num romance do seculo 19 que torna-se aqui uma declaração de amor a encenação, ao cinema, ao sexo, a Seigner.

 

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9. Tristeza e Alegria (Nils Malmros)

Problematizar um ato de brutalidade é sempre um risco – de soar misantropo, de simplificar demais, de adocicar. Malmros porém consegue encontrar um balanço à história da mãe que num surto acaba matando a filha pequena abrindo uma elipse entre a tragédia e a tentativa de recomeço, onde o marido reconta a história que os levou até ali (enlaçada numa subtrama de ciúme da esposa pelo olhar do marido, diretor de cinema, para a atriz adolescente que protagoniza um filme sobre desejos incestuosos). Evitando procurar respostas e soluções simples, o filme projeta magistralmente a natureza humana e seus contrastes.

 

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8. Corrente do Mal (David Robert Mitchell)

Há que se vencer as claras referências Carpenterianas para se entender o verdadeiro tamanho do filme. A câmera em constante movimento, para além de claque virtuosística, é a personificação do mal que assola a tela, sempre caminhando “em direção” aos personagens (e por consequência a nós), por sua vez sempre em rota de fuga. É um filme de tomada de consciência, de inocentes jovens do suburbio entrando em contato com o que “vem de lá”, do lado negligenciado da cidade, do obscuro. O horror está sempre no desconhecido.

 

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7. Mia Madre (Nanni Moretti)

Grande cineasta e grande humanista, Moretti como de praxe costura a teia social, as relações dos personagens descascando aos poucos suas inaptidões, seus traumas e idiossincrasias até chegar em sua essência – e assim o ator Barry (John Turturro em grande atuação), a princípio um idiota, acaba revelando-se uma pessoa adorável. Todo esse processo revelatório, que se estende aos demais personagens, faz parte dessa desconstrução de cinismo que está no olhar de Moretti e no filme é refletido nos adoráveis olhos de Margherita, a protagonista.

 

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6. Mad Max: Estrada da Fúria (George Miller)

Experimentação com corpos, movimento, espaço, duração: o cinema em seu estado mais bruto. George Miller destitui tudo que não seja essencial no funcionamento do aparato cinematografico, nos deixando com uma espécie de mistura de Etienne-Jules Marey e western b da Warner. Que este tenha sido um blockbuster de tamanha repercussão só pode ser um bom sinal – para o público, para os estúdios e para o cinema (de massa ou não).

 

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5. Para o Outro Lado (Kiyoshi Kurosawa)

O sobrenatural não é um elemento novo no cinema de Kurosawa, mas se usualmente ele é utilizado como interferência em “nosso mundo” (i.e. o mundo dos “vivos”), aqui ele parte em movimento contrário e leva a parte viva do casal a conhecer os espaços por onde o morto passou, as pessoas com quem conviveu, as sensações que experimentou. E ainda assim é possível que este seja o filme mais celebratório e cheio de vida que o diretor já fez. Lindo, lindo.

 

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4. Já Visto Jamais Visto (Andrea Tonacci)

Um mistério, uma investigação sobre imagens que a cada revisão levanta uma nova dúvida, instiga. Tonacci continua buscando formas de comunicar que não encontra paralelos no cinema nacional (e talvez seja um dos poucos cineastas que proponham um diálogo com o Godard do século XXI), o documental e o ficcional formando um híbrido que não o de “Serras da Desordem”. Sobre o autor e suas idéias, recomendo esta ótima entrevista feita pelo amigo Sérgio Alpendre.

 

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3. La Sapienza (Eugène Green)

Em sua “viagem a Itália”, o casal de Eugène Green, também em crise, encontra a reconciliação e se reencontra através de um casal de irmãos adolescentes que, como anjos, aparecem para rearranjar suas relações (conjugais, com as artes – no caso a arquitetura, assim como a geografia, minuciosamente examinada no filme -, com o assistencialismo, com o filho perdido, com a vida). Figuras angelicais, sublimação pela arte, iluminação: a luz a que tanto se refere o garoto Goffredo, a que “preenche espaços vazios”, naturalmente não diz respeito apenas ao fenômeno físico. Um filme católico, se entendido como tal a forma pela qual se eleva o espírito.

 

2.sniper
2. Sniper Americano (Clint Eastwood)

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1. Adeus à Linguagem (Jean-Luc Godard)

O Godard pós-“Historias do Cinema”, ou podemos dizer o Godard do século XXI, vem mergulhando cada vez mais fundo num processo de redescobrimento da imagem – a estética, a grafia, o signo – e por conseguinte numa reestruturação da linguagem cinematográfica. Dentro dessa trajetória, nada mais interessante do que o 3D, uma técnica que ainda não tomou forma, para investir na idéia do desvirginamento do olhar. Assim, o filme vai rascunhando um novo idioma, uma nova forma de relacionar-se com a imagem projetada: quando as duas câmeras “se separam” e cada olho vê uma cena diferente, Godard joga a montagem para o espectador, que escolhe qual plano quer ver fechando um dos olhos. Câmera-olho. Tateando terrenos inexplorados, Godard pensa em Vertov – e é nessa dialética entre o clássico e o moderno, o velho e o novo, o visto e o não visto, o racional e o intuitivo, que reside o seu gênio. Não houve filme mais importante do que esse nos últimos anos.

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