Os 25 Melhores Filmes De 2015 Que Não Entraram Em Cartaz No Brasil

Essa, é claro, é uma lista impossível: sempre haverá uma infinidade de filmes a serem vistos, muitos aos quais não tive acesso, outros mais ainda que não conheço. Trata-se portanto de um recorte de filmes vistos em festivais, exibições especiais, fora do país, em blu-ray, dvd ou baixados na internet que (ainda) não tenham entrado em cartaz no Brasil – tendendo então a uma seleção mais livre, já que independente do crivo do circuito.

Apesar de inéditos, a maioria destes filmes já se encontra disponível para compra ou download, logo a quem se interessar não será muito difícil encontrá-los.

Seguem os escolhidos:

 

25.junun
25. Junun (Paul Thomas Anderson)

Descendo até a India com Jonny Greenwood, Shy Ben Tzur e o produtor Nigel Godrich para registrar a gravação de um disco com músicos locais usando um belíssimo forte como estúdio, Paul Thomas Anderson volta com um filme que, apesar de totalmente musicado e sem o rigor e o controle de um filme encenado, consegue construir uma narrativa estabelecendo relações entre os músicos, o estúdio, os ritos e a região que os circunda.

 

24.trainwreck
24. Trainwreck (Judd Apatow)

Claramente um veículo para Amy Schumer, que escreve e o protagoniza, mas o fato é que Judd Apatow parece ter encontrado aqui seu ponto de equilíbrio: se seus filmes anteriores padecem em alguns momentos, neste, o ritmo preciso, quase maníaco – não por acaso estamos em NY e somos lembrados de um Woody Allen de melhor safra – consegue segurar a narrativa e fazer as piadas funcionarem por toda sua duração. Uma pena não ter estreado por aqui.

 

23.naturalhistory
23. Natural History (James Benning)

Um filme atípico dentro da obra de Benning, provavelmente o único filmado em local fechado, com closes e alguns planos rápidos. Comissionado pelo próprio museu de história natural de Viena, o filme toma um caminho curioso evitando registrar qualquer sinal de vida – só perceptível por ruídos que se ouve ao fundo ou dedução do que se mostra – ao apresentar um local onde a vida é uma representação de imagens estáticas, de animais empalhados, sendo a montagem por vezes uma reflexão sobre nossa própria existiência e extinção.

 

22.onirica
22. Onirica – Field of Dogs (Lech Majewski)

A solidão, ilustrada nas idas e vindas de Adam, sobrevivente de um acidente que matou sua amada e seu melhor amigo e vive entre uma sensação de desconexão da realidade e despertencimento, como um filho que Deus esqueceu de levar, e seus sonhos e delírios, estimulados por um estado de narcolepsia induzida. Filme existencialista, Heideggeriano até, mas que não cai nas convenções um Malick – seu sucesso é justamente por não fazer maiores questionamentos e se manter nesta zona de impasse espiritual do protagonista.

 

21.tigermountain
21. The Taking of Tiger Mountain (Tsui Hark)

Autor-por-excelência no establishment do cinema de Hong Kong (e agora do Chinês), Tsui parte novamente de uma peça para agradar a patronagem (um romance Maoísta da década de 50 tratando de um pequeno grupo do exército nacional a tomar uma montanha dominada pelo mais poderoso grupo de bandidos) para chegar num produto genuinamente seu: um balé de balas cortando o ar em câmera lenta, coreografias corporais beirando o barroco e um pesado investimento em computação gráfica, gerando traços cartunescos na mesma toada de seus dois “Detective Dee”, quase uma animação em live-action. Curiosamente o epílogo, um jovem no presente reimaginando a história original de uma forma muito mais exagerada, é justamente a ilustração do que ele próprio faz com o material original.

 

19.dontgo
20. Don’t Go Breaking My Heart 2 (Johnnie To)

Assim como a “lógica invertida” que motiva as decisões da personagem Yang Yang e do polvo adivinhador, cada plano do filme chega para negar uma idéia que estava sendo maquinada no anterior, numa espécie de espiral contrária que faz uma “comédia romântica” que começa com um plano de uma noiva experimentando vestido terminar com qualquer idéia de “amor” e “final feliz” completamente despedaçada.

 

20.fieldniggas
19. Field Niggas (Khalik Allah)

Filmar personagens da rua à noite e captar seus depoimentos poderia resultar num estudo antropológico sem interesse, mas graças à forma que as falas são engenhosamente inseridas em off, auxiliando na criação de uma narrativa, e especialmente graças à identidade que o diretor confere às imagens, que, de forma quase abstrata, quando em planos de conjunto analisam os corpos em relação ao espaço que habitam e, quando nos hipercloses, se aproximam dos sentimentos dos personagens ao mesmo tempo de sua sensação de descolamento, de não-pertencimento. O resultado é um curioso híbrido de Cassavetes, Pedro costa e Dave Lachapelle.

 

18.blackhat
18. Blackhat (Michael Mann)

É preciso partir do princípio de tratar-se de um filme irregular: se a evolução tecnológica sempre travou uma dialética com a construção de sua obra, aqui o diálogo é reservado apenas para dentro da narrativa, com traquitanas eletrônicas apresentadas sob o olhar curioso de quem não sabe bem como dar cabo de tanta novidade. Para além disso, porém, Mann segue um romântico, filmando a noite com um lirismo que pouco se vê no cinema, deleitando-se com as luzes da China e Hong Kong e com a parábola de um homem em uma missão – sendo o encontro desses vértices a inacreditável sequência final, no meio de uma festa multicolorida com centenas de pessoas em Jakarta – uma das melhores do ano e que remete ao igualmente épico ápice de “Blow Out”.

 

17.garoto
17. Garoto (Júlio Bressane)

“Boy meets girl”, um homem e uma mulher, adão e eva, matéria-prima (do cinema, da existência), presença, ausência, sexo, desejo, floresta, deserto, folhas, pedras, memórias, fragmentos, repetição, Rua Aperana, um serrado quase lunar, reeducação sentimental, filme versus digital, amor, desencontro, aproximação, incomunicabilidade, som, silêncio, vísceras. O tudo e o nada, o gênesis e o apocalipse. Bressane em seu essencial.

 

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16. Sara (Herman Yau)

Talvez seja o filme feminista do ano, não por levantar bandeira e definitivamente não por sacrificar a forma em prol de uma “causa”, mas por apresentar o mundo filtrado pelo olhar de uma mulher que concebeu sua vida e convicções a partir de uma relação abusiva com o padrasto; um olhar comprometido com mudanças (jornalista, ela tenta vender uma matéria sobre prostituição e abuso) e com ajudar o semelhante (a prostituta tailandesa que ela acaba por “adotar”), mas ao mesmo tempo cansado e frustrado com a condição da mulher oriental, com a sina da gueixa que assola sua própria vida.

 

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15. National Gallery (Frederick Wiseman)

Wiseman, como de praxe, faz um laboratório da vida em sociedade através de uma instituição fechada, mas ao contrário da grande maioria seus filmes, que observa a relação entre pessoas num organismo onde as pessoas são a matéria-prima (academias, escolas, quartéis, hospitais), aqui o foco está nas obras de arte, cuja estática permite um desvio no olhar característico (este talvez seja um de seus filmes mais formais, do ponto de vista estético) e onde a relação homem/obra acaba por pautar a própria forma de encarar os seus filmes.

 

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14. C’est L’Amour (Paul Vecchiali)

O contraponto diurno e ensolarado à escuridão de “Noites Brancas no Pier”, sendo a luz, que invade e inunda o quadro, como o amor, descrito pelo próprio diretor num prólogo como uma espécie de fenômeno que toma o espaço sem concessões, de forma brutal. Apesar dos toques humorísticos e das experimentações com a forma da narrativa, que de certa forma fazem lembrar seus filmes dos anos 80 e 90, trata-se de um filme que, assim como o antecessor, leva os personagens a um caminho inevitável, o da tragédia emocional. O único da lista com estréia já confirmada no Brasil para 2016.

 

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13. Glass Chin (Noah Buschel)

Fazer um film noir (e sim, o filme tem absolutamente todos os signos que se espera de um noir, subtraído apenas da femme fatale) em 2015 significa trazer à tela todo um imagético que já está há décadas no inconsciente coletivo cinematográfico. Assim, quando filma em planos longos e estilizados, fugindo dos cortes rápidos e do naturalismo de seus contemporâneos, Noah Buschel tem plena consciência da função quase metalinguística de suas imagens: aqueles personagens, aquelas sombras, aqueles cenários são o inventário de todo um cinema, e quando deixa o tempo agir sobre eles, o diretor estabelece uma relação de opacidade, projeta o aparato do gênero de volta ao espectador.

 

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12. Cemetery of Splendour (Apichatpong Weerasethakul)

A manobra de Apichatpong, basicamente a de jogar todo elemento fantástico para o fora de campo – os soldados narcolépticos que, numa das poucas cenas com presenças sobrenaturais, são avisados de que não sairão deste estado pois o hospital em que se encontram era um templo e os espíritos de reis estão usando sua energia para lutar em outras dimensões (mas ficamos visualmente apenas com o materialismo dos soldados e das enfermeiras que cuidam dos mesmos) – ao mesmo tempo quebra as expectativas e tira o filme da sombra de “Tio Boonmee”; trata-se portanto (e assim como todos os seus filmes) de um trabalho que absorve algo de seu antecessor e o entrega sob uma nova luz, com outras observações e experiências. Uma obra em constante diálogo, evolução e movimento.

 

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11. Forget Me Not (Kei Horie)

Praticamente um negativo de “Amnesia” (aquele, do Christopher Nolan), não só por conta da narrativa – aqui são todos os personagens que sofrem de uma espécie de apagão coletivo e de tempos em tempos esquecem da existência da protagonista, Azusa Oribe – mas também pela completa expurgação de cinismo ou acidez na visão de mundo: o filme existe desde sempre como conto de cinema, uma fábula sobre descobertas da adolescência, do amor e amizade mas também de inseguranças e traumas como a impopularidade, o fracasso, o medo do “ser ninguém”. Poderia é claro dar tudo errado, mas o diretor consegue com muita sensibilidade ligar os pontos entre o romantismo, a memória e o cinema – sim, como todos os filmes sobre memória, este também é um filme sobre cinema.

 

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10. João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas Que Eu Amei (Manuel Mozos)

Parte de um documentário sobre a vida de um grande homem, mas atinge objetivos muito maiores quando se revela um tratado sobre o olhar, sobre conhecimento, sobre o amor (pelo cinema, pelas artes, pela família) e sobre compartilhá-los – afinal, tratamos aqui de um professor, programador e crítico, e qual a função destes senão passar tudo isso adiante? Antes de um filme sobre um personagem, é um filme sobre formas de pensar (o cinema, o amor, a vida).

 

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9. Pas Son Genre (Lucas Belvaux)

Atores da comédie française e a história de um intelectual Parisiense indo parar numa cidade de interior e apaixonando-se por uma cabeleireira de interesses mais modestos poderiam fazer apenas mais uma protocolar comédia de costumes Franceses, mas a encenação de Belvaux, que me lembra a de um Serge Bozon ou Axelle Ropert, traz uma força ao filme que destoa de todo o cinema francês contemporâneo, uma força evidente em cada plano que o casal divide a tela, em cada troca de olhares, no enquadramento dos corpos, na forma apaixonada que a belíssima Jennifer é filmada – uma câmera platônica faz dela o centro do universo à maneira que se faziam as musas da Hollywood clássica. Um filme adorável.

 

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8. SPL 2: A Time For Consequences (Soi Cheang)

Não seria nenhum exagero chamar o filme de Shakespeareano, ou melhor, de uma ópera baseada em Shakespeare. As virtuosísticas sequências de ação, mais do que cenas de porrada, são o expressionismo corporal da carga dramática, como solos de violino ou violoncelo, de bailarinos, de tenores ou sopranos. Um filme de ação tocado em ritmo musical, com pleno domínio da forma fílmica, das relações entre planos, tempo e movimento, cuja estrutura operística leva a uma inacreditável sequência de clímaxes. Bravíssimo.

 

7.murmur
7. Murmur Of The Hearts (Sylvia Chang)

“Quando envelhecemos, coisas inesquecíveis costumam voltar a nós com força”, diz um dos personagens, numa linha que basicamente sumariza o conceito Freudiano do filme, que acompanha três personagens em luta para dar conta da relação com suas respectivas infâncias. Melodrama de plena sutileza, conduzido magistralmente por Sylvia Chang, uma das mais importantes figuras do cinema asiático (só em 2015 escreveu e atuou em “Office”, também nesta lista, e atuou no filme de Jia Zhang-Ke, que ainda não vi) que volta a direção depois de mais de 7 anos, o filme está em pé de igualdade com o que de melhor se vê no cinema de Taiwan, não sendo uma heresia compará-lo a um Edward Yang, por exemplo.

 

6.Visita
6. Visita Ou Memórias e Confissões (Manoel de Oliveira)

Quase ficou de fora pelo impasse em tratar-se de um filme de 1982 lançado em 2015, mas quando me dei conta de que esta é a última chance de colocar um filme de Manoel de Oliveira numa lista de melhores do ano, mudei de idéia. Repito o comentário já feito por aqui: “O primeiro e último filme a ser lançado após sua morte. Sensação estranha. O começo pelo fim: rodado em 1982, é um filme-testamento (Manoel ali tinha 73), onde através de uma visita à casa onde morou por 30 anos projeta lembranças – dele, da casa, de sua família, do cinema. Só autorizou a exibição para depois de sua morte (e o destino nos reservou a honra de tê-lo vivo e ativo por mais de 30 anos), um gesto de grandeza e humildade, de reservar ao cinema um pedaço de sua existência, mas só quando ele não mais existisse. Um filme de fantasmas (mas não o são todos?), um olhar poético sobre a vida e a morte que também permeou sua obra a partir dali, principalmente nos últimos anos. Emocionante.”

 

5.office
5. Office (Johnnie To)

Um musical altamente estilizado e filmado em estúdio me parece o veículo perfeito – e uma lacuna a ser preenchida – para o gênio de To, o mais próximo que o cinema contemporâneo oferece de um diretor dos grandes estúdios da década de 50. A disposição do cenário remete imediatamente a “Tempos Modernos” e “Playtime”, e a observação da sociedade moderna e das relações laborais mostra que de fato o legado destes filmes paira sobre cada quadro aqui. As paredes abertas, sempre mostrando pessoas ao fundo (separadas por molduras) refletem uma época em que estamos conectados mas nunca de fato juntos; o relógio, onipresente, sempre demarcando um ritmo maníaco; o décor artificial denotando a interação entre os personagens, a relação com suas aspirações, seu espaço no mundo – todos complementados pelos números musicais que fazem deste não um trabalho anacrônico, mas certamente diferente de tudo que se vê hoje em dia.

 

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4. Le Journal D’Un Vieil Homme (Bernard Émond)

Adaptado de um conto de Tchekhov, o filme acompanha um renomado professor/pesquisador em seus últimos meses de vida, entre o medo da morte, as reflexões sobre a existência, o distanciamento da mulher e da filha, um sentimento de fracasso em relação a família e impotência em ajudar a enteada (num estado de crescente melancolia), com quem possui uma maior conexão emocional – e cujo laço é central na narrativa. A forma como trabalha o drama familiar, bem como o uso da luz e os planos sub-expostos evocam James Gray, outro com predileção por romancistas russos, mas o approach aqui é mais minimalista e o diálogo mais duro. O resultado, porém, é oposto ao que pode sugerir: partindo de um olhar amargurado e trágico sobre a vida, Émond faz o mais humano dos filmes.

 

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3. The Assassin (Hou Hsiao-Hsien)

O wu-xia (gênero que mistura fantasia e artes marciais) em versão opiácea. Já para o final do filme, numa reunião, um conselheiro conversa com o príncipe, enquanto a câmera vai lentamente se afastando e o volume do diálogo diminuindo, até se tornar inaudível – um indício de que, por mais que desenrole uma narrativa, o interesse de Hou está no olhar, na forma de observar placidamente a matéria, a presença dos elementos – com destaque para o fogo e especialmente para o ar: praticamente todas as cenas começam e/ou terminam com o balançar de folhas, de cortinas, lençois e vestidos; com a dança da chama das velas, tochas e lampiões; com o movimento das nuvens, da fumaça ou da neblina – sugerindo a resiliência de Yinniang, a assassina do título. O filme mais bonito do ano.

 

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2. Right Now, Wrong Then (Hong Sang-Soo)

Aproxima-se de “A Visitante Francesa” na intervenção do aparato dentro da narrativa (o filme anunciando-se como tal quando do aviso de que uma situação será reencenada), mas a temática da variação de uma mesma imagem/tema está no centro de todos os seus filmes. Pedro Costa recentemente alegou que Hong “assumiu o lugar que um dia foi de Woody Allen”, mas gostaria de adicionar que seu cinema também vai ao encontro dos de Eric Rohmer e Yasujiro Ozu: do primeiro, a capacidade de capturar a incerteza dos encontros, a desorientação dos momentos que antecedem o primeiro beijo; do segundo, a atenção para o gestual, detalhes do cidadão oriental e a ênfase na forma dentro da repetição de uma cena. De ambos, a falsa impressão de simplicidade e o crescimento dos filmes a cada revisão. Seu melhor nesta década.

 

1.cavalodinheiro
1. Cavalo Dinheiro (Pedro Costa)

As citações a Jacques Tourneur são praticamente um protocolo quando se fala do cinema de Pedro Costa, mas um filme como “Cavalo Dinheiro” me remete igualmente a Dreyer (especialmente a “Gertrud” – sendo o preto, as sombras, as subexpostas memórias de Ventura e Vitalina um negativo do branco, da claridade, dos luminosos flashbacks de Gertrud) e a Murnau e os expressionistas – existe uma intenção de reconstruir, de materializar de forma quase Caligárica as memórias de Fontainhas, tanto as de Ventura quanto as do próprio diretor (que fez desta sua Monument Valley espiritual). Filme de encruzilhadas, fantasmagórico mas materialista, onírico mas consciente, dramatúrgico mas documental. Forte candidato a filme da década, por este que é o mais importante diretor deste século que começa.

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