Os 25 Melhores Discos de 2015

Seguindo com a retrospectiva tardia de 2015, esta é uma lista dos 25 melhores discos que chegaram a meus ouvidos durante o ano. Além da óbvia observação de tratar-se de um recorte (é uma lista individual e não há tempo hábil para se ouvir ou conhecer todos artistas) e da dificuldade em verticalizar uma seleção dessa forma, tenho a dizer que resolvi deixar os discos que considero “experimentais” para uma lista à parte, tanto pela dificuldade em comparar obras com propostas muito diferentes, como para abrir espaço para outros discos que gostei.

Dez menções, em ordem alfabética:

.Blanck Mass – Dumb Flesh (Sacred Bones Records)
.Deerhunter – Fading Frontier (4AD)
.Dungen – Allas Sak (Smalltown Supersound)
.Godspeed You! Black Emperor – Asunder, Sweet and Other Distress (Constellation Records)
.Jenny Hval – Apocalypse, Girl (Sacred Bones Records)
.Lakker – Tundra (R&S Records)
.Mbongwana Star – From Kinshasa (World Circuit)
.Mount Eerie – Sauna (PW Elverum & Sun, Ltd)
.Rabit – Communion (Tri Angle)
.Tamaryn – Cranekiss (Mexican Summer)

Os Escolhidos:

low
25) Low – Ones and Sixes (Sub Pop)
Falei um pouco sobre o disco e a banda aqui

 

julien
24) Julien Baker – Sprained Ankle (6131 Records)
A solidão transposta em música – a começar pela forma que as próprias foram escritas, numa cabine à prova de som, até a gravação (um microfone, um take), a sonoridade, a temática. Uma jovem, seu violão/guitarra e o exercício de tirar pesos das costas – drogas, amores perdidos, fé relutante, insegurança, morte, ansiedade, essa maratona chamada vida. Elliott Smith, Jeff Buckley, Alex Chilton, românticos solitários, de algum lugar olham por ela.

 

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23) Passo Torto & Ná Ozzetti – Thiago França (YB)
Encontro entre as duas vanguardas paulistas: Ná Ozzetti se insere na sonoridade da banda sem que ela perca suas características, sua voz complementa os diálogos entre guitarras, violões e contrabaixo (a ausência de elementos percussivos faz com que os ataques às cordas ganhem força rítmica e alimentem o clima sombrio das faixas), suas composições se misturam às dos demais integrantes. A prova de que ser “vanguarda” é ser sempre o novo.

 

lana
22) Lana Del Rey – Honeymoon (Interscope Records)
Enquanto a maioria perde tempo discutindo se a coroa de flores é isso ou aquilo, se ela é hipster ou não, Lana Del Rey vai moldando uma persona que me lembra uma Dusty Springfield pós-moderna. A faixa-título faz uma boa taxa de amostragem: os arranjos orquestrados, a languidez nos vocais, a tristeza que se sente no olhar, está tudo muito longe de um objeto de moda. “Honeymoon” não é um disco de festa, é um disco de fossa.

 

bobdylan
21) Bob Dylan – Shadows In The Night (Columbia Records)
Quando resolve gravar um repertório de standards interpretados por Frank Sinatra, dentro de um recorte temporal que compreende basicamente a fase “madura”, dos discos de separação e fossa, Bob Dylan propõe um encerramento de ciclo – partindo do alto de meio século de carreira e retornando a um período brevemente anterior ao seu início – e um recomeço, deixando de lado os dotes de compositor e focando justamente na figura do intérprete que ele nunca se apegou. O resultado é surpreendemente belo, especialmente nos registros de voz e atmosfera onírica dos arranjos. Mais um estágio de sucesso no contínuo ato de desconstrução e reinvenção da própria imagem que é a sua carreira.

 

20.anna
20) Anna Von Hausswolff – The Miraculous (City Slang)
Anna Von Hausswolff retorna a sua bucólica cidadezinha natal no norte da Suécia para reviver as fantasias infantis, o mundo imaginário que ela criou como forma de escapismo – mas, como a capa insinua, a atmosfera de fábula tem um contraste, um lado obscuro, os monstros que a vida adulta tratam de tirar do armário. A possibilidade de usar um órgão de 9 mil tubos da igreja local, de registrar sons que devem habitar seu imaginário, é outro gesto importante nesse resgate que o disco propõe – a onipresença do órgão, quase um drone no meio dos arranjos mais distorcidos, é seu toque autoral, que a tira da vala comum do post-rock, do metal ou de outro gênero associado e garante um posto único, de artista inclassificável.

 

bjork
19) Bjork – Vulnicura (One Little Indian Records)
O outro “disco de separação/coração partido” do ano, que nesse aspecto sai na frente em relação ao Tame Impala por ser mais duro, tanto na forma quanto na temática. Bjork faz o que muitos consideram seu disco mais franco, aberto, entregue – e provavelmente o seja, mas é também o trabalho de uma artista com os olhos abertos para o ecossistema musical contemporâneo: não por acaso, os dois principais colaboradores (Arca e Haxan Cloak) são produtores de ponta na música eletrônica voltada para as frequências baixas, que  junto a belos arranjos de cordas, dão a tônica das bases e criam uma tensão propícia a sua voz.

 

helen
18) Helen – The Original Faces (Kranky)
O “projeto de rock” de Liz Harris (grouper), que apesar de contar de fato com o combo baixo-guitarra-bateria, segue com seu mote de sons que parecem fragmentos de sonhos, vocais sussurrados, palavras que se fundem a distorções e pairam no ar, uma espécie de shoegaze levado a uma floresta fantástica, onde idéias, lembranças e sentimentos se misturam, se perdem, vão e voltam (e que por momentos mergulham num fosso profundo de melancolia); música de superfície (não confundir com superficial), que faz da ambiência algo tão decisivo quanto a harmonia e a melodia.

 

thiago
17) Thiago França / R.A.N. – Space Charanga (Goma Gringa)
John Coltrane ouve os discos setentistas de Miles Davis e Sun Ra, os da virada para os 80 de Herbie Hancock, conhece o rap, dá um passeio pela Africa e é apresentado a Fela Kuti; vem até o Rio e cai no samba, sobe até a bahia e conhece os batuques, o afoxé e a capoeira; segue para a Colômbia e ouve a cumbia, depois a música Caribenha e Jamaicana e, ao fim dessa jornada, baixa num terreiro para mostrar o que é que aprendeu. É assim que a sobrenatural sessão (o disco foi gravado em um dia) de R.A.N. chega a nossos ouvidos, um disco de jazz com tantos sabores que fica até difícil classificá-lo como tal, bem como chamá-lo de musica Brasileira (ou Americana, ou Africana, ou Caribenha…). “World Music” no melhor sentido imaginável, portanto.

 

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16) Colleen – Captain of None (Thrill Jockey)
Sexto (e melhor) disco da francesa Cécile Schott, seu mais diversificado em termos de arranjos, estruturas e sonoridades e o mais enxuto na escolha de instrumentos: salvo alguma percussão e uma escaleta, praticamente todos os sons são provenientes de uma viola da gamba, instrumento renascentista utilizado das formas mais diversas, reprocessado por efeitos, ressignificado, organizado em minuciosas camadas sonoras. A filosofia da música eletrônica, dos loops, uma forte influência do dub (delays, ecos, ambiências), da música Africana, vocais à Liz Harris, um clima etéreo mas ao mesmo tempo praiano; fato é que nada disso é suficiente para descrevê-la, e a capacidade de ao mesmo tempo soar imediatamente reconhecível é dos sinais mais claros de um artista que atingiu a plenitude.

 

stara
15) Stara Rzeka – Zamknęły się oczy ziemi (Instant Classic)
Banda de um homem só, inclinada para o que conhecemos por “Música Psicodélica”, seria cômodo classificar o Stara Rzeka como um Tame Impala ou Dungen da Polônia, mas o approach do malucão Kuba Ziolek – que mergulha em conceitos filosóficos e metafísicos (escreveu um manifesto chamado “magical brutalism”) – me parece mais visceral e abrangente que o de seus colegas. Seu disco tem uma toada de transição, de músicas que vão se estendendo até se transformarem, passando de um Pink Floyd fase “Meddle” a um Flying Saucer Attack, de jams stoner rock ao black metal, de ritmos hipnóticos do krautrock ao drone, da eletrônica ao free jazz – tudo alicerçado por seculares raízes folk, que trazem ares medievais à sofisticação das misturas. Um universo próprio, mais do que um disco.

 

14.elza
14) Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo (Natura Musical)
O baterista e produtor Guilherme Kastrup juntou um grupo de artistas paulistanos, com núcleo na formação do Passo Torto/Metá Metá, passando por Bixiga 70, os compositores José Miguel Wisnik e Douglas Germano e chegando à mixagem de Victor Rice (de “Dub Side of the Moon”) para a missão de reinventar a carreira e imagem de Elza Soares. Com um escrete tão talentoso e variado, aberto às influências das mais diversas (do samba de raiz ao punk), era de se esperar a riqueza do material, mas o que confere o sucesso da empreitada é o casamento da voz de Elza com essa música tão diversificada e moderna: pouco importa se ela participou de fato do processo criativo ou foi sua vedete, quando ela aparece, sua voz toma conta do arranjo, direciona as músicas. Uma força da natureza.

 

13.gabi
13) Gabi – Sympathy (Software)
Cantora lírica e compositora de formação, Gabrielle Herbst parte da fundação de uma ópera para construir sua identidade como artista solo, mas abre mão da orquestra e utiliza a voz não só como protagonista e condutora de uma narrativa, mas também como blocos rítmicos e harmônicos, matéria prima na elaboração dos arranjos e holofote que ilumina (ou escurece) as emoções que o disco pretende transmitir. A ênfase na pronúncia das sílabas (e das palavras) é mais importante do que as próprias letras, evocando um imagético através da repetição, das frases voltando em outras cadências por novos canais, da exploração de camadas de sua própria voz, das relações espaciais criadas pelas ambiências. Fatiar e esculpir os sons, “sound design”, a música clássica, a eletrônica de vanguarda associada aos produtores do disco. Deu tudo certo.

 

12.grimes
12) Grimes – Art Angels (4AD)
Os discos da Grimes, pude confirmar após este, me causam uma reação curiosa: a primeira impressão é a de achar que são músicas convencionais, básicas, sem muito espaço para se aprofundar. Aos poucos, porém, elas vão apresentando suas estranhezas, vão fugindo do estigma de pop ralo, andam no caminho oposto da “familiarização” que costuma chegar com a audição repetida: a cada vez que as ouço, menos sei sobre elas – e isso fala muito sobre o gênio das composições, da forma que são elaboradas, da sensibilidade em desconstruir as fundações mais popularescas sem perder o apelo. “Art Angels” é um disco de música pop virada ao avesso, de uma cantora que é a antítese da diva pré-fabricada.

 

11.juçara
11) Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga (Sinewave / QTV)
No EP com Marcio Bulk, lançado em 2014, Cadu Tenório já havia mostrado desenvoltura no casamento do noise com a melodia (especialmente com vozes femininas). “Anganga” é um passo adiante no conceito: a voz de Juçara Marçal não só canta como acrescenta camadas à esporreira dos arranjos, interage com as distorções, como um instrumento conduzindo uma orquestra caótica. A coisa vai além: as canções são interpretações de vissungos, cânticos seculares de populações escravizadas do estado de Minas (registradas no LP “O Canto dos Escravos”, de 1982), e o fio condutor do disco é a espiritualidade, que provoca este curto-circuito espaço-temporal, ligando Brasil e Africa, a escravidão e o pós-industrial, a voz e a maquina, o ontem e o amanhã.

 

10.beachhouse
10) Beach House – Depression Cherry (Sub Pop)
A polpa do que se pode imaginar chamar de “dream pop”. Cocteau Twins, Spacemen 3, My Bloody Valentine, Stereolab, Slowdive, Mazzy Star – o Beach House é todos eles, mas com uma assinatura que já é inconfundível. Em “Depression Cherry” voltam a deixar os elementos percussivos a cargo de baterias eletrônicas antigas e concentram-se nos sintetizadores e guitarras, nas camadas de drone que preparam o palco para os vocais de algodão doce de Victoria Legrand, que parecem soprados em nosso peito. Como o nome da banda sugere, seu som é um refúgio, é fechar os olhos e ver as ondas do mar quebrando num dia nublado, os primeiros raios de sol depois da chuva, o cobertor numa manhã fria de domingo. Senhoras e senhores, estamos flutuando no espaço.

 

9.blur
9) Blur – The Magic Whip (Parlophone Records)
Apesar dos 12 anos que o separam de seu antecessor, “The Magic Whip” soa perfeitamente como uma sequência, uma resposta à dúvida de para onde a banda iria depois de “Think Tank” e com Graham Coxon de volta às guitarras. É um disco com a marca de Damon Albarn, o repertório abrangente sendo uma massa que já não distingue o frontman do Blur do músico que gravou no Mali, do cérebro dos Gorillaz e dos diversos projetos paralelos. O que cola as composições são a sua melancolia característica e o trabalho dos outros músicos, especialmente Graham que supervisionou os arranjos emprestando suas guitarras inconfundíveis (ja comentadas nesse post), e Alex James, respectivamente os melhores guitarrista e baixista de sua geração. Uma grande banda, que “volta à forma” sem precisar soar nostálgica.

 

8.itfollows
8) Disasterpiece – It Follows OST (Milan)
Triunfa em todas as suas proposições: é uma excelente trilha sonora para o filme e o enriquece (há momentos em que é difícil desassociar as imagens dos sons), é uma excelente trilha mesmo sem o suporte do filme – isto é, suas composições conseguem evocar uma série de imagens, (re)criar uma narrativa – e é um excelente disco, independente de sua condição de trilha. Rich Vreeland, até então trilheiro de videogame, mostra um talento exemplar na construção de uma atmosfera de suspense, na alternância entre tensão e relaxamento, na fúria dos clímaxes. Uma sinfonia eletrônica com olhar atento para as obras de John Carpenter (sem o qual o filme também não existiria) e Bernard Herrmann, mas que em nenhum momento perde o toque autoral (e atual).

 

7.joanna
7) Joanna Newsom – Divers (Drag City)
Uma das características dos discos de Joanna Newsom que pouca gente comenta, talvez pela repelência que o termo ainda causa, é que eles atualizam conceitos de “rock progressivo” – seja na complexidade dos arranjos, na mudança de andamentos, no interesse por músicas folclóricas (e a própria associação ao dito “psych-folk”), no virtuosismo, no storytelling das letras, no flerte com a vanguarda, temos aqui um belo exemplar de onde o gênero poderia chegar caso não tivesse afundado na auto-indulgência. Nada disso poderia funcionar, é claro, não estivéssemos falando de uma das maiores cantoras e compositoras das últimas décadas, que aqui se destaca pelo amadurecimento da voz, caminhando para timbres menos agudos, e pela maior acessibilidade – dentre sua irrepreensível carreira, este é seu disco mais amigável, uma bela porta de entrada.

 

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6) Chelsea Wolfe – Abyss (Sargent House)
“Intensidade” é a primeira palavra que vem à cabeça ao pensar na voz e nas músicas de Chelsea Wolfe, especialmente neste “Abyss”, que completa o processo de retirada de um véu que parecia proteger as músicas de um contato mais direto com o mundo – em seus discos anteriores havia um tanto de introspecção, que aqui é explodida por uma sonoridade enorme (a entrada do onipresente John Congleton na produção é resultado direto deste som mais expansivo) e um mergulho mais fundo nas interpretações, que externalizam as sensações, sonhos e alucinações de seus distúrbios de paralisia do sono. É um disco para se ouvir em volume alto, que consegue ir às profundezas com batidas eletrônicas fortes e guitarras lindamente distorcidas, mas também flutuar com leveza quando quer – uma experiência de imersão em aguas escuras como as que envolvem a figura feminina da capa.

 

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5) Ava Rocha – Ava Patrya Yndia Yracema (Circus Produções)
Sentimos a presença do tropicalismo, da Gal setentista, de Jards Macalé, das vanguardas paulistas, dos + 2, de Zé Celso, do jazz e da musique concrete. Ava Rocha é tudo isso e ao mesmo tempo não é nada disso: uma artista única, de maturidade impressionante para um segundo (quase um primeiro) disco, segura na condição de estrela (e como brilha!) e cercada por grandes talentos, com destaque para Jonas Sá, que entre tocar vários instrumentos, produzir e arranjar carrega com propriedade a herança de um Lindolpho Gaya ou Rogério Duprat. É um disco sobre o mar, sobre amar, onde a palavra tem uma força invocativa que não se vê normalmente na música – nacional ou não; onde a potência vocal de Ava encontra amparo nas composições, na instrumentação, na produção. Daqueles raros momentos em que os astros parecem estar perfeitamente alinhados.

 

4.tameimpala
4) Tame Impala – Currents (Interscope Records)
Será que é essa “enorme guinada na carreira” que parte da imprensa musical andou alardeando? Houve de fato uma mudança nos parâmetros – se antes eram os Beatles ou o Cream, hoje são os Chemical Brothers ou o M83 – mas o Tame Impala manteve-se essencialmente uma banda psicodélica. A diferença para os dois primeiros discos é que o som passou por um processo semelhante ao do prisma da capa de “Dark Side of the Moon”, tornando-se mais colorido e diversificado, com menos guitarras mas investindo em outros caminhos (uma linha de baixo de funk setentista, uma melodia à Michael Jackson, uma parede de sintetizadores). Ao contrário daqueles que se fecham num casulo e acabam sufocados, Kevin Parker se mostra um músico desbravador, vislumbrando um mar de possibilidades para o futuro.

 

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3) Holly Herndon – Platform (4AD)
Provavelmente a artista que melhor incorpora a idéia de músico da era pós-internet: o laptop é ferramenta, seu instrumento e seu estúdio, mas é também uma extensão de suas idéias e sentimentos – não há mais separação entre o que está em nosso cérebro e o que está armazenado no hd, na nuvem. A simbiose entre homem e máquina, cognição e tecnologia, que permeou de Kraftwerk a Burial, aqui chega na fase de fusão completa. A “plataforma” que o titulo sugere é justamente a que engloba os ambientes digitais, que vai de sistemas operacionais a redes sociais; é a heterogeneidade de uma obra que se propõe a ir além da música, que traz colaborações de designers (visuais e de som), poetas, ativistas políticos, programadores, performers de ASMR, economistas, coreógrafos, todos conectados pela imersão na cultura digital; de um disco cujas principais fontes sonoras são de ruídos gravados na navegação na internet e vozes sintetizadas, que versa numa mesma faixa sobre término de relacionamento e vigilância da NSA. Tudo ao mesmo tempo agora.

 

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2) Sufjan Stevens – Carrie & Lowell (Asthmatic Kitty Records)
Existe um seleto grupo de músicos que consegue nos transmitir uma sensação de proximidade, de empatia; quando ouvimos suas músicas, pensamos “que grande sujeito”. Seja pelos arranjos intimistas, pela forma de cantar baixo/próximo ao microfone, pelas letras, pelos sentimentos que desperta, o fato é que ouvir “Carrie & Lowell” é quase como sentir um abraço – e como um abraço é uma troca, um conforto para as duas partes, este disco foi todo escrito e gravado como uma forma de consolo, de dar conta da morte de uma mãe errática, que criou, abandonou, mas continuou sendo mãe; dos sofrimentos e dificuldades de uma infância, mas também de uma busca por reconciliação, com a mãe morta, com amores perdidos, com a fé, consigo mesmo. É raro ver um artista se expondo, se entregando dessa forma, e talvez daí venha a cumplicidade que ele inspira. Vislumbrando uma vida cheia de sombras entrecortadas por luzes, chorando pela tristeza mas também pela magnitude da existência, Sufjan Stevens fez o disco mais bonito do ano.

 

1.juliaholter
1)  Julia Holter – Have You In My Wilderness (Domino Records)
Que tipo de música faz Julia Holter? Podemos dizer que em seus dois primeiros discos a cantora buscava uma identidade (com tijolos de Kate Bush aqui, Laura Nyro ali, Laurie Anderson cá, Joanna Newsom acolá, cimentados com camadas de musica clássica, eletrônica e de vanguarda) e em seu terceiro, o primeiro gravado com uma banda, atingiu aquele estágio no qual o idioma já é facilmente identificável, onde o artista passa a ser considerado “completo”. Aqui, livre do peso da busca, ela nos convida para o espaço que construiu (inclusive no título), a passear por jardins onde sons barrocos e angelicais se misturam a contos que ecoam literatura fantástica e mitologia grega; música suspensa no tempo, como uma caixinha que guarda boas lembranças. A declaração de que 3 ou 4 das músicas haviam sido compostas em 2010 e rearranjadas para o disco só reforça o fato de que sua carreira e composições são a depuração de uma linguagem, e esse desabrochar já garantiu a construção da mais forte discografia da década até então.

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