Furor nas Trevas: “A Bruxa”

The-Witch

O folclore acerca da bruxaria, bem como as histórias de julgamentos, condenações e execuções no século XVII, estão diretamente ligados à relação da mulher com a sociedade da época, ao espaço restrito e submisso que lhes era reservado: as ameaças e lendas eram também uma forma de castração, tanto sexual/moral quanto intelectual. Não é por acaso, portanto, que a personagem central de “A Bruxa”, a filha adolescente Thomasin, seja para a família a causa de sua danação: além da sexualidade aflorando (despertando a atenção – luxúria – do irmão, que observa seus seios sob a roupa, e da mãe, que – inveja – alega que ja é hora de mandá-la para formar sua própria família), ela é a personagem mais livre, que esboça idéias e opiniões e, por vezes, questiona seus hábitos. Essa liberdade a levará a um desfecho que, dependendo do olhar, poderá ser de salvação ou desgraça.

Antes de Thomasin, porém, temos o patriarca William: postura monolítica, normalmente posicionado no centro do quadro, câmera em leve contra-plongée (de baixo para cima) reforçando seu posto de autoridade dentro daquele núcleo. Extremamente religioso, logo ao início do filme, numa espécie de julgamento diz aos co-habitantes de uma vila que nenhum deles tem moral para criticá-lo, e – orgulho – irá se retirar com a família para uma região isolada. Começa então a jornada de um grupo cujo pilar não é tão sólido quanto se faz parecer, e cuja derrocada virá através da corrupção dos próprios valores. A rigidez com as regras divinas que o pai cobra é desvirtuada por ele próprio, seja pela vaidade, pelas mentiras que irá contar, pela ira que o consumirá mais adiante: William é um ser humano, e é justamente a humanidade que o impede de ser perfeito, de ascender a divindade almejada. Essa sua frustração é refletida no sentimento de culpa que passa aos filhos, especialmente Caleb, o mais velho, desesperado menos pela morte do irmão do que pelo fato dele não ter sido batizado, penitente pelo desejo que nutre pela irmã, preocupado com o que o aguarda no pós-vida.

Apesar dessa análise sobre a religiosidade dos personagens, é necessário dizer que em nenhum momento o filme se coloca na posição de julgá-los, de questionar o mito, as histórias, de firmar uma posição ideológica: se algo desanda, é de acordo com as suas regras, seus princípios. Dessa forma, se há uma crença no bem, no que é sagrado, há também a certeza do profano, logo o sobrenatural (o mal) é representado de uma forma lógica, tangível: logo ao início, vemos uma bruxa num ritual sangrento; mais adiante, a mãe adentra um cômodo e vê os dois filhos que já haviam morrido, pega o bebê nos braços e lhe dá de mamar e, quando saímos da câmera subjetiva para um plano de conjunto, vemos um corvo bicando seu seio. Todas as cenas fantásticas são filmadas frontalmente, sem recursos de câmera, artifícios, efeitos. A floresta decrépita, misteriosa, é mais assustadora pois seus domínios são desconhecidos. O mal é concreto, táctil, como o bode que irá encarná-lo ou a névoa que vai tomando o espaço, sufocando – nos fazendo lembrar de “O Príncipe das Sombras”, de John Carpenter.

Além de Carpenter, a trama de uma comunidade vivendo numa remota região demarcada por uma floresta remete à “Vila” de Shyamalan, mas o maior diálogo que “A Bruxa” parece travar é com um diretor pouco provável num filme de terror: Ingmar Bergman, o da “Trilogia do Silêncio” e especialmente o de “A Fonte da Donzela”. Se em Shyamalan temos a fé como elemento de conciliação, aqui os personagens têm suas doutrinas e convicções cada vez mais sacudidas, postas à prova. A cada um deles é reservado um momento de solidão, física e espiritual, de questionamento, de repensar a relação com Deus, com seus pecados. Assim como em “A Fonte da Donzela”, temos a partir dos primeiros planos uma forte indicação visual de algo terrível que está por vir, e como em Bergman, são as crianças (aqui, os gêmeos) aqueles que testemunham as visões do terrível. A explosão do pai, que, impotente, põe-se a cortar lenha, é a mesma do personagem de Max Von Sydow, desesperado a destruir uma árvore – possuídos pela raiva, perdidos entre um sentimento de abandono divino e busca pela purificação. E se a árvore, símbolo da vida, anuncia o assassinato que Von Sydow irá cometer, os tocos de lenha ressecados cortados por William são seus corpos moribundos, prestes a serem levados. Diante do impasse da ação divina, fica a resolução a cargo de um diabolus ex machina.

Pedro Costa costuma dizer que, para um diretor, o primeiro filme é quase como uma prestação de contas – com os filmes que viu, os livros que leu, as músicas que ouviu, as experiências que teve até ali. Robert Eggers, crescido na Nova Inglaterra (terra das bruxas de Salem) entre ruínas de fazendas e lendas de antepassados, impregnado pela cultura local, pagou sua dívida em grande estilo.

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