Mostra de SP: Dicas e Apostas

 

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A Mostra Internacional de São Paulo, que começa hoje, é o maior festival de cinema do país: maior estrutura, maior número de filmes, salas e sessões, maior público. Será que esse público, porém, ainda considera o evento como o maior do país?
Antes de qualquer comentário sobre a programação propriamente dita, há que se colocar em pauta um assunto do qual os cadernos de cultura parecem desviar: o embargo a filmes (à exceção de nacionais) que já tenham sido exibidos em outros festivais pelo país, adotado nos últimos anos sob um discurso de que, não optando pela exclusividade, a Mostra acabaria diminuída, menos importante, uma reprise de festivais que ocorrem anteriormente – mais notadamente, o Festival do Rio – e o que temos visto é um cabo de guerra onde São Paulo vem gradativamente perdendo os lançamentos mais relevantes do ano (seja por críticas, por autor, por premiações, pelo retorno, pela expectativa) para o Rio.

Em 2016, dos 12 concorrentes à Palma de Ouro em Cannes, 6 foram para o Rio (incluindo o vencedor) e 3 para SP. O vencedor do Leão de Ouro em Veneza também foi para o Rio. O cinéfilo paulistano que não pôde atravessar a dutra perdeu os últimos de Johnnie To, Andrzej Zulawski, Eugène Green, Terrence Davies, Raymond Depardon, Olivier Assayas, Wang Bing, Kenneth Lonergan, Bertrand Bonello, Andrei Konchalovsky, Matias Piñeiro, Jeff Nichols, João Pedro Rodrigues, Sergei Loznitsa, Todd Solondz e Hong Sang-Soo, só para citar alguns (note que dentre estes estão nomes comumente associados à mostra – mais um sinal de escoamento). A organização da Mostra insiste que os títulos mais relevantes acabarão por entrar em circuito, sendo portanto sua programação uma chance para conhecer coisas novas, mas honestamente, quantos dos supracitados entrarão de fato em cartaz por aqui? mais ainda: para estes (poucos), quando chegarão às nossas telas, quando já tiverem sido lançados em blu-ray/dvd/streaming? é claro, este é um problema das nossas distribuidoras, mas que deveria ser levado em conta pela organização. Nem mesmo Andrzej Wajda, que ganhou uma retrospectiva com 17 títulos, terá seu último trabalho exibido por conta desta política, que ao fim das contas denota uma postura arrogante, de tentar agradar uma minoria de jornalistas dos tais cadernos culturais que têm a possibilidade de viajar, enquanto dá de ombros para as expectativas do público, que acaba sendo o maior prejudicado. Já passa da hora da Mostra rever essa limitação – afinal de contas, em boa parte de seus 40 anos ela nunca existiu. Passemos então aos filmes.

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“De Punhos Cerrados”, de Marco Bellocchio

RETROSPECTIVAS
Uma (bem-vinda) novidade foi o aumento do número de retrospectivas/ciclos: se normalmente tínhamos uma retrospectiva principal e mais uma complementar, neste ano temos um apanhado de filmes de cinco diretores. São eles:

MARCO BELLOCCHIO

Apesar de não ser a mais completa (serão 11 filmes exibidos), sem dúvida é a retrospectiva mais aguardada. Bellocchio é um dos grandes gênios do cinema Italiano (o maior ainda em atividade, ao lado de Dario Argento) e seus filmes são exemplos de como fazer cinema político sem apelar para o senso comum, para o panfletarismo, para as saídas mais fáceis, sem pedir a cumplicidade do público. A dita integridade, que anda cada vez mais rara em nossos tempos. Todos os filmes ganham a máxima recomendação, com um destaque maior para seus dois últimos (e ainda inéditos no circuito) “Belos Sonhos” (2016) e “Sangue do Meu Sangue” (2015), bem como para “De Punhos Cerrados” (1965 – das maiores estréias da história), “A China está Próxima” (1967) e “A Hora da Religião” (dos grandes filmes deste século, com exibição em 35mm). Se fica uma ponta de insatisfação, é com a ausência de filmes da década 70 e, mais ainda, a de “Salto no Vazio” (1980), exibido na Mostra retrasada (na retrospectiva da MK2) em duas sessões inacessíveis, preteridos por “Vencer” (2009), “Irmãs Jamais” (2010) e “A Bela que Dorme” (2012), que apesar de excelentes, estiveram todos recentemente em cartaz no Brasil.

ANDRZEJ WAJDA

A maior retrospectiva, com 17 filmes, que ganha ainda mais força com a triste coincidência de seu falecimento, tem como destaque a trilogia da década de 50, “Geração” (1954), “Kanal” (1956) e “Cinzas e Diamantes” (1958), provavelmente seus melhores filmes e aqueles que pavimentaram o caminho aberto pela Escola Polonesa de cinema, bem como solidificaram uma estética e temática (as cicatrizes da guerra, tão caras a toda uma geração de diretores do país) que percorreria toda sua carreira. Atenção ainda para “O Casamento” (1973), um surreal filme de fantasmas e luta de classes, e “Danton – O Processo da Revolução” (1983), seu primeiro filme de exílio, co-escrito por Jean-Claude Carrière.

WILLIAM FRIEDKIN

Sete filmes de um dos grandes da Nova Hollywood (que estará no Brasil para uma masterclass), sendo cinco de seu período “clássico”: os mais-do-que-vistos “Operação França” (1971) e “O Exorcista” (1973) e os imperdíveis “O Comboio do Medo” (1977 – seu “filme maldito”, que finalmente vai ganhando a merecida atenção e vem com cópia restaurada em 2013), “Parceiros da Noite” (1980 – o polêmico filme onde Al Pacino interpreta um policial infiltrado, investigando um assassino de homossexuais em redutos de sadomasoquismo) e “Viver e Morrer em Los Angeles” (1985 – um dos grandes filmes da década de oitenta numa novíssima cópia restaurada em 4K).

KRZYSZTOF KIEŚLOWSKI

Apresentação da cópia restaurada de “O Decálogo” (1988), sua obra máxima e um dos filmes prediletos de Stanley Kubrick, em sessões de dois episódios cada. Uma pena não terem trazido as versões estendidas de “Não Amarás” e “Não Matarás”. O ciclo conta ainda com uma sessão englobando cinco curtas, rodados no período entre 1969 e 1980.

JIM JARMUSCH

Seus três primeiros (e melhores) filmes, “Férias Permanentes” (1980), “Estranhos no Paraíso” (1984) e “Daunbailó” (1986) que (para o bem e para o mal) foram molde para o cinema independente Americano que viria a partir de então. Seu último filme, “Paterson” (2016) também entra no programa – e mesmo que tenha deixado a desejar nos últimos anos, é sempre um diretor a se conferir. (obs: em mais uma fatalidade causada pelo vírus da exclusividade, a mostra perde seu outro filme de 2016, “Gimme Danger”, a biopic dos Stooges. Pena.)

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“Elle”, de Paul Verhoeven
RECOMENDAÇÕES

Aqui, uma lista de recomendações mais sólidas:

.A Grande Cidade (1966), de Cacá Diegues

Dentro de um programa de homenagem a Antônio Pitanga.

.Apresentação especial Aloysio Raulino

Sete curtas de um de nossos grandes fotógrafos e documentaristas, que ganhará em breve uma caixa em DVD com estes e outros trabalhos.

.Barravento (1961), de Glauber Rocha

Também no programa de Antônio Pitanga.

.Beduíno, de Júlio Bressane

O maior diretor de cinema em atividade no Brasil, voltando a trabalhar com Alessandra Negrini, que parece ter nascido para atuar em seus filmes.

.Correspondências, de Rita Azevedo Gomes

Depois da obra-prima “A Vingança de uma Mulher”, dos maiores filmes desta década, a diretora volta com um documentário lírico sobre a troca de cartas entre dois poetas Portugueses.

.Deixa na Régua, de Emílio Domingos

Depois do ótimo “A Batalha do Passinho”, Emílio segue com seu olhar sem deslumbres e aburguesamentos para a vida no subúrbio do Rio.

.Elle, de Paul Verhoeven
Primeiro longa de Verhoeven em dez anos e o filme mais esperado desta Mostra.

.Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho

Dos nossos grandes autores, Rosemberg segue sem a merecida atenção e cada lançamento seu é motivo de comemoração – especialmente quando precedido por comentários elogiosos como este vem recebendo.

.Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1976), de Hector Babenco

Homenagem ao falecido diretor com a exibição de seu melhor filme.

.Martírio, de Vincent Carelli

Depois de “Corumbiara”, Carelli mergulha novamente no território indígena, acompanhando por anos a batalha dos Guarani-Kaiowas por terras, por direitos, pela vida.

.Mata Atlântica e Sexta-Feira 13, de Nicolas Klotz e Élisabeth Perceval

Dois médias (um documental, outro ficcional) do casal Francês rodados no Brasil.

.O Ignorante, de Paul Vecchiali

Um filme de orçamento consideravelmente maior que seus dois últimos, com Catherine Deneuve e Mathieu Amalric no elenco e roteiro novamente co-assinado por Noël Simsolo. Não tem como dar errado.

.O Quarto Homem (1983), de Paul Verhoeven

O que se insinuou como retrospectiva do diretor, acabou apenas com mais um filme, este excelente thriller, penúltimo de sua fase Holandesa, que será exibido em 35mm (sempre algo a se comemorar nos dias de hoje).

.O Segredo da Câmara Escura, de Kiyoshi Kurosawa

Primeira produção Francesa do maior e mais prolífico diretor Japonês da atualidade.

.Os Demônios, de Philippe Lesage

Primeiro filme ficcional do diretor Canadense, já disponível na internet, que parte de uma visão aterrorizante para retratar o amadurecimento de uma criança.

.Persona (1966), de Ingmar Bergman

O momento onde Bergman desconstrói sua própria obra. Vale lembrar da exposição sobre o filme, “Por Trás da Máscara”, até o dia 06/11 no Itaú Cultural.

.Variety (1983), de Bette Gordon

Na apresentação especial desta pouco lembrada diretora, destaque para este que reprocessa e vulgariza a atmosfera de obsessão de “Vertigo” pelo olhar de uma mulher.

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“O Último Trago”, de Luiz Pretti, Pedro Diogenes, Ricardo Pretti

APOSTAS

.76 Minutos e 15 Segundos Com Kiarostami, de Seifollah Samadian

Homenagem a Kiarostami por seu amigo e colaborador, que juntou imagens inéditas captadas ao longo de sua carreira (o programa conta ainda com seu último curta, “Me Leve Pra Casa“)

.A Atração, Agnieszka Smoczynska

Normalmente um prêmio em Sundance afugenta mais do que atrai, mas um filme onde sereias são representadas como vampiros pode ser um convite ao inesperado.

.A Garota Desconhecida, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Seus três últimos filmes não têm a consistência dos mais aclamados, mas os irmãos seguem com forte recomendação.

.A Luta do Século, de Sérgio Machado

O documentário sobre a rivalidade entre Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield que acabou por promover mais uma luta entre os já aposentados oponentes.

.Antes o Tempo não Acabava, de Sérgio Andrade, Fábio Baldo

O choque entre um personagem, um índio que sai de sua comunidade, e um espaço, a cidade de Manaus, onde ele vai tentar a vida.

.Bickels (Socialism), de Heinz Emigholz

Documentário sobre construções arquitetônicas de Samuel Bickels em Israel, representando motes da Europa Socialista dos meados do século passado.

.Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-Eda

Errou nos últimos filmes, mas é um diretor talentoso, ainda merecedor de atenção.

.Elon Não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Jr

Um dos mais elogiados filmes da última edição do festival de Brasília.

.Futuro Perfeito, de Nele Wohlatz

Vencedor do prêmio de melhor  primeiro longa em Locarno, tem uma interessante premissa, que mistura o aprendizado de uma lingua pela protagonista com a capacidade de intervir na construção do filme.

.Mimosas, de Oliver Laxe

O vencedor da semana da crítica em Cannes.

.O Afogamento, de Bette Gordon

O novo filme da diretora do já citado “Variety”.

.O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho

Uma homenagem e uma janela para a obra do maior dos diretores Portugueses, bem como recordações da relação entre ambos.

.O Último Trago, de Luiz Pretti, Pedro Diogenes, Ricardo Pretti

Novo e promissor filme dos autores de “Com os Punhos Cerrados” e “Os Monstros”.

.Porto, de Gabe Klinger

Primeira ficção do professor e crítico que há três anos esteve na mostra com sua estréia, o bom documentário “Double Play: James Benning e Richard Linklater”.

.Poesia Sem Fim, de Alejandro Jodorowsky
É difícil saber o que esperar (inclusive em termos de qualidade) de um filme do diretor/bruxo/filósofo/tarólogo, mas é sempre recomendado arriscar.

.Sem Deus, de Ralitza Petrova
Primeiro longa desta diretora Búlgara e vencedor do festival de Locarno, um dos festivais mais compromissados com o cinema de sempre.
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