I Might Be Wrong: Os Melhores Shows de 2016

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Radiohead em Barcelona

Começando a retrospectiva tardia de 2016 com a ponta das escolhas mais subjetivas.

O disco, o single, a música gravada são a eternização de um momento que na verdade é a culminação de vários “momentos” combinados – a captura de uma nota executada muitas vezes é adicionada de outras capturas, efetuadas em outro tempo e até outro espaço, retrabalhada numa sala de mixagem, levada depois a uma sala de masterização. O trabalho de gravação de uma música consiste na planificação dessas várias camadas de tempo numa só, definitiva. Esculpir o tempo.

A apresentação ao vivo, por sua vez, tem um conceito praticamente oposto: é uma transiente temporal, é a celebração do efêmero, de um momento que invariavelmente vai ficar pra trás e não poderá ser repetido – dois shows de um mesmo artista, no mesmo lugar, com a mesma platéia, nunca serão iguais, porque o tempo ali experimentado é a junção de uma infinidade de particularidades que vão influenciar diretamente em sua percepção. Talvez por isso o conceito de “disco ao vivo” seja tão pouco interessante – o “show gravado” está mais para uma lembrança, um souvenir (mesmo que de algo que não se tenha presenciado), do que para uma idéia de obra.

Assim sendo, uma lista de “melhores shows” é naturalmente uma lista mergulhada na maior das subjetividades (por mais que tentemos organizá-la da forma mais racional), porque se no momento a experiência já está atrelada a tantas variáveis, a posterior avaliação se baseia estritamente na memória e processos afetivos e intuitivos.

Salvaguardas feitas, estes são portanto os melhores – enquanto mais significativos, mais emocionantes, mais divertidos, mais prazerosos, mais um monte de outros parâmetros concebíveis – shows que assisti em 2016:

Dez menções honrosas, sem preferência:

.Air
.Beak>
.Moderat
.Ava Rocha
.Savages
.Explosions in the Sky
.Swervedriver
.Beach House
.Dinosaur Jr
.Metá Metá

 

ty
10) TY SEGALL

É impossível passar incólume aos encantos de Ty Segall e sua banda: molecada em polvorosa, pulando e cantando todas as músicas, intervenções humorísticas que beiram a demência e o frontman mais idiossincrático de sua geração – além de por a platéia em chamas, arrancar gargalhadas e fazer o maior crowdsurfing já visto, ainda proporcionou (com a ajuda do fã igualmente destrambelhado) este momento histórico. Queria meus 15 anos de volta.

 

floating
09) FLOATING POINTS

É curioso como nos dias de hoje o jazz é visto por seu público com um viés saudosista, uma postura que contradiz um gênero que nunca se furtou de incorporar novos elementos, evoluir. E se o que se imagina como jazz hoje está na mão de certos artistas eletrônicos, o Floating Points expandido em uma banda promove uma atualização do Miles Davis de “On the Corner” a “Get Up With It”, eletrônico e orgânico fundidos em longas jams, muito mais agressivas do que seus registros em disco. Um show que sinaliza caminhos promissores a um artista ainda jovem.

 

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08) ALESSANDRO CORTINI
A única fonte de luz num escuro teatro vinha de projeções, imagens vanguardistas que por vezes lembravam um Kenneth Anger ou um Stan Brakhage reprocessados por um laptop artist, uma trilha visual para conduzir a música – transitando entre batidas eletrônicas, o drone, a síntese modular – e evitar a digressão: o som ali é para ser ouvido, mas também sentido (na vibração do corpo, na reverberação de cada canto da sala) e, por que não, visto. Cortini é o que mais perto temos de um Klauz Schulze, de um Terry Riley e seus song cycles. Música para ser experimentada.

 

 

sigurros
07) SIGUR RÓS

Há que se superar o fato de que a banda transitou do formato que a consagrou para um mais facilmente assimilável: reduzida a três integrantes, vemos a transiente entre o delicado e o épico acelerada, os arranjos mais hiperbólicos de modo a construir uma sucessão de clímaxes – o que um dia foi intimista passou ao colossal. É um show alto, como se víssemos aquelas paisagens gélidas construídas nos discos a desmoronar – o que, junto a uma estrutura de palco que por si só parece uma instalação artística, por quase duas horas nos coloca em estado de catarse.

 

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06) HOLLY HERNDON

A materialização das idéias de seus discos, do artista web 2.0, do laptop não só como ferramenta, instrumento e estúdio, mas extensão de suas idéias e sentimentos, a “plataforma” que promove uma simbiose entre ambientes físicos e virtuais (confome comentarios sobre o disco, terceiro na lista do ano passado por aqui) as músicas vão sendo (des)construídas em nossa frente, enquanto um artista visual interage com elas e conosco. É como uma alucinação de participar de uma festa de vanguarda dentro do second life – e com os graves mais altos que ja presenciei (a ponto de em algum momento temer pelos meus tímpanos). Sonho em vê-la por aqui num evento como o Novas Frequências.

 

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05) JOHN CARPENTER

Nas primeiras notas do tema de “Escape From New York”, ainda no escuro, um arrepio; na entrada do arranjo, com telão acendendo e imagens do diagrama da ilha no filme, a explosão da platéia: o fato é que a maioria ali já estaria satisfeita só de ver e vivenciar esse momento diante do maior cineasta americano vivo, mas como era de se imaginar, a força das trilhas (a maioria puxada por riffs memoráveis) combinada com a projeção dos respectivos filmes fez daquilo algo muito maior do que uma celebração de (ou para) fãs. Showzaço.

 

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04) JULIA HOLTER

Foram três shows, vistos em lugares diferentes, e se o de São Paulo – prejudicado por um som ruim, perdendo em volume para um público desinteressado e mal educado – decepcionou, o de Portugal compensou com um local incrível, com o cheiro do parque e a brisa do mar, com um tratamento de headliner (pela estrutura ou pelo público), permitindo que nossa musa flutuasse com graça, voz e arranjos celestiais para algumas das melhores músicas da década. E ainda teve a pouco tocada versão de “Don’t Make Me Over”. Fãs e curiosos saíram em estado de graça.

 

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03) PJ HARVEY

PJ Harvey em cima do placo exerce uma espécie de força centrípeta, empurrando todos os olhares, toda a atenção para sua voz, seus gestos, seus movimentos. Seu novo espetáculo, fruto de uma repaginada identidade, cada vez mais próxima da música folclórica inglesa, é impressionante: a banda, com 8 músicos (entre eles Mick Harvey e John Parish), entra em fila indiana, como uma fanfarra, e essa idéia de movimento percorre todo o show, com troca de formações e instrumentos de acordo com o arranjo de cada música (fazendo lembrar da dinâmica do Neutral Milk Hotel). O repertório é centrado no último álbum e, depois de duas apresentações, não tenho dúvida que funciona como um complemento, uma antena retransmissora que amplifica a força do disco e faz o espectador voltar a ele com outros olhos. De brinde, uma antológica performance de “To Bring You My Love”.

 

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02) LCD SOUNDSYSTEM

Antes do aguardado retorno como headliners de festival, James Murphy e cia resolveram fazer um “esquenta”, só para fãs, num espaço pequeno. E que aquecimento: era indigno sair da Sala Barts sem estar encharcado de suor. Banda completamente em forma, entrando no palco como um trator, plateia ensandecida (conferir este vídeo, com mais ou menos metade do set, para ter uma idéia), aquele clima de cumplicidade entre público e artista (em dado momento Murphy comenta que há mais de uma década não fazia um show sem separação entre palco e platéia). Eis que o tal do disco-punk, termo que já nasceu caduco, passa a fazer sentido num show em 2016. Não é de se espantar, vindo de uma banda que surgiu fazendo chacota da própria obsolescência. Dali a três dias fariam outro (grande) show para um público 100 vezes maior, mas a atmosfera mágica deste aqui vai ser difícil de se repetir.

 

thom

01radio
01) RADIOHEAD

Não é só por uma banda que há exatas duas décadas continua no auge, com músicos cada vez melhores e mais entrosados; não é só por um repertório que, em duas horas e meia, está longe de se esgotar (quantas músicas essenciais ficaram de fora!); não é só pela devoção do público, em silêncio absoluto, absorto, tentando assimilar cada fatia de som vinda do palco: um show do Radiohead tem uma dimensão metafísica, uma força cósmica que está além de nossa capacidade cognitiva. Quando a banda começa a tocar, o mundo parece parar de girar, as luzes da cidade ao fundo parecem estáticas, a vida de quem está fora daquele mar (de cabeças, braços, vozes, energia) congela. Nada de mais importante pode estar acontecendo naquele momento, ou aquele momento é mais importante que tudo. A qualidade do som e das imagens do telão estão um degrau acima de seus pares, e é com essa magnitude, com a consciência de serem (seja de seu gosto ou não) a maior banda dessa virada de século que entregam aos fãs um show digno daqueles que as grandes bandas dos anos 60 e 70 faziam, e que até hoje são lembrados, comentados, festejados. Gigante.

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