Os 25 Melhores Filmes em Cartaz em 2016

Se na introdução da lista de 2015 questionei-me sobre a relação da quantidade de boas estréias com a entrada de distribuidoras menores no mercado, em 2016, um ano ainda mais forte em termos de circuito, pode-se afirmar sem medo de errar que estas distribuidoras (como a Supo Mungam, Zeta, Mares e Fênix) são responsáveis diretas por essa mudança de quadro – e ainda que muitas vezes seus filmes entrem em poucas salas e por período curto, o crescente número de estréias por si já representa uma abertura de leque, podendo quem sabe trazer novos hábitos para os frequentadores.

A título de curiosidade, pesquisei as distribuidoras de cada um dos 25 filmes desta lista e cheguei ao seguinte placar: em primeiro estão a Imovision e a Supo Mungam, com 4 títulos cada; em segundo a Zeta, com 3; em terceiro, Sony, Warner e Mares, com 2 títulos cada; Fênix, Vitrine, Universal, California, Imagem, Diamond e Cinesesc chegam com um título cada – sendo ainda um filme de distribuição própria.

Antes dos 25, e comprovando a boa safra, deixo ainda 15 títulos que por muito pouco não estiveram na lista. Sem ordem de preferência: Amor & Amizade, de Whit Stillman; O Astrágalo, de Brigitte Sy; Belos Sonhos, de Marco Bellocchio; O Bom Gigante Amigo, de Steven Spielberg; O Botão de Pérola, de Patrício Guzmán; A Chegada, de Denis Villeneuve; Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-Eda; A Frente Fria que a Chuva Traz, de Neville D’Almeida; O Lamento, de Na Hong-Jin; O Lar das Crianças Peculiares, de Tim Burton; Spotlight, de Thomas McCarthy; O Tesouro, de Corneliu Porumboiu; O Valor de um Homem, de Stephane Brizé; X-Men Apocalypse, de Bryan Singer e White God, de Kornel Mundruczo.

Por fim, um candidato hors-concours, estreado apenas em uma sala (e por uma semana):

 

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Visita Ou Memórias e Confissões (Manoel de Oliveira)

O primeiro e último filme a ser lançado após sua morte. Sensação estranha. O começo pelo fim: rodado em 1982, é um filme-testamento (Manoel ali tinha 73), onde através de uma visita à casa onde morou por 30 anos projeta lembranças – dele, da casa, de sua família, do cinema. Só autorizou a exibição para depois de sua morte (e o destino nos reservou a honra de tê-lo vivo e ativo por mais de 30 anos), um gesto de grandeza e humildade, de reservar ao cinema um pedaço de sua existência, mas só quando ele não mais existisse. Um filme de fantasmas (mas não o são todos?), um olhar poético sobre a vida e a morte que também permeou sua obra a partir dali, principalmente nos últimos anos. Emocionante.

 

A lista dos 25:

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25. As Montanhas se Separam (Jia Zhang-Ke)

Há um tanto de perversidade na temperatura das cores, que vai mudando ao longo das sequências mas sempre se mantém artificial, como que refletindo a inevitável perda de identidade no processo de ocidentalização da China. O melodrama aqui nada mais é do que uma mudança na abordagem desse efeito erosivo, central em toda sua filmografia: a “Go West” (versão dos Pet Shop Boys) que ouvimos no princípio do filme ganha um sentido completamente diferente quando a ouvimos novamente nos créditos finais.

 

 

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24. O Homem nas Trevas (Fede Alvarez)

Das coisas mais interessantes do ano passado no cinema Americano de grande circuito. Fede Alvarez é um artesão que usa, antes de qualquer coisa, a câmera para resolver ou estender sua intriga (e por mais de uma hora “aperta os botões certos” e mantém a tensão sem usar praticamente uma linha de diálogo), que entende a força do corte, que sabe trabalhar o tempo, em suma, que pensa em cinema – e faz, portanto, um filme inteligente. Um lastro de esperança em tempos onde produções zilionárias empregam diretores que mal sabem o que fazer com uma câmera.

 

 

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23. Incompreendida (Asia Argento)

Quando logo ao início vemos a mãe e a irmã de Aria numa câmera subjetiva, sentadas ao piano com uma luz mais intensa, cabelos artificialmente ao vento em slow motion, somos sutilmente imersos no olhar fantasioso da criança, sendo toda a encenação dali em diante uma representação das sensações da menina – a esperança, a alienação, a ansiedade, a idealização, a frustração. Ainda que de forma alegórica, e portanto em chave contrária, a brutalidade com que a infância é retratada encontra paralelo na de Pialat (e de pouquíssimos outros na história do cinema). De longe o melhor de seus três filmes.

 

 

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22. Sangue do Meu Sangue (Marco Bellocchio)

Como um infiltrado, Bellochio cria uma obra de contornos barrocos, apresentada de forma quase religiosa para expor uma estrutura de poder (da igreja, da burguesia, dos políticos, da polícia) e aqueles que a perpetuam, ao mesmo tempo em que se coloca em posição de insubordinação a qualquer espécie de autoridade. O desejo, por ser o mais sincero dos impulsos, será sempre instrumento de subversão, capaz de romper a barragem da opressão, de acabar com nosso cinismo, com a resignação. Amar é um gesto de resistência, diz aqui o último dos realizadores anarquistas.

 

 

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21. É o Amor (Paul Vecchiali)

O contraponto diurno e ensolarado à escuridão de “Noites Brancas no Pier”, sendo a luz, que invade e inunda o quadro, como o amor, descrito pelo próprio diretor num prólogo como uma espécie de fenômeno que toma o espaço sem concessões, de forma brutal. Apesar dos toques humorísticos e das experimentações com a forma da narrativa, que de certa forma fazem lembrar seus filmes dos anos 80 e 90, trata-se de um filme que, assim como o antecessor, leva os personagens a um caminho inevitável, o da tragédia emocional.

 

 

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20. Creepy (Kiyoshi Kurosawa)

A gradual transição de um procedimento investigativo para o terror psicológico com contornos metafísicos acompanha o estado de seu protagonista, que vê o terror instaurando-se pelo núcleo da estrutura escolhida para reconstruir sua vida (profissional, conjugal). O que se mostra está sempre de acordo com seu estado de espírito, seja a mudança da luz no depoimento da menina sobrevivente ou no rompimento com a lógica espacial na masmorra escondida dentro da casa do vizinho, o agente aterrorizante que dispara a neurose e nos conduz ao território fantasmático por onde Kurosawa transita tão bem.

 

 

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19. A Academia das Musas (José Luis Guerín)

Não há mais que se falar nos “limites entre a ficção e o documentário”: quando anuncia uma “experiência pedagógica filmada”, o que está sendo colocando em jogo não é a linguagem, mas o desenvolvimento de uma idéia. O “aprendizado” não passa pelo que é dito/discutido nas aulas, mas em como aquilo irá influenciar os personagens, em como suas relações serão afetadas. Este processo é apresentado de forma brilhante, desenvolvendo uma narrativa linear ao mesmo tempo que constrói um labirinto – cortando diálogos antes de suas resoluções, transitando de planos “duros” para outros mais estetizados, se aproximando e se afastando de personagens, o filme nos nega uma conclusão ou julgamento, deixando sempre a sugestão de um outro caminho. De acadêmico, não tem nada.

 

 

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18. Sinfonia da Necrópole (Juliana Rojas)

Se “a necrópole é um espelho da cidade”, não é só pela óbvia relação com a especulação imobiliária, mas também pela deteriorização da memória em prol de uma otimização financeira, pelas relações laborais regendo a existência. Num momento onde o “empreendedorismo” é a palavra de ordem, um filme conduzido pelos efeitos do econômico sobre o social/afetivo é dos maiores gestos políticos do cinema nacional recente. A construção do musical se dá pelo dispositivo (as coreografias são criadas mais pela câmera – quadro, espaço -, luz e corte do que pelos corpos) e o tempo, outro elemento vital para o gênero, confere força às piadas, à pontuação do dialogo, à relação entre os personagens. “Sinfonia” é a culminação formal não só da diretora como de todo o coletivo Filmes do Caixote.

 

 

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17. A Bruxa (Robert Eggers)

Comentado AQUI

 

 

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15. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (Richard Linklater) + Nossa Irmã Mais Nova (Hirokazu Kore-Eda)

Dois filmes complementares, que partem de lados opostos mas tem como interseção o processo de adaptação de um indivíduo a um grupo – no caso de Linklater, um jogador de beisebol que se junta aos futuros colegas de time/universidade numa casa compartilhada; no de Kore-Eda, a menina que é convidada a morar com suas três irmãs por parte de pai depois da morte deste. Sem uma trama definida, sem conflitos, ambos são filmes elípticos, onde a narrativa é desenrolada através de situações repetidas (o “male bonding” criado entre festas e jogos, a fraternidade despertada entre refeições e passeios), rituais de estreitamento de laços mas também de individualização dos personagens (e seu sucesso está no olhar generoso, no interesse com que estes são observados) e de aprendizado – sobre a amizade, as relações com o sexo oposto, o peso das decisões, o futuro. Raramente a passagem de tempo é registrada de forma tão sutil.

 

 

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14. Café Society (Woody Allen)

É como se o retorno a Nova Iorque lhe trouxesse uma nova perspectiva: “Café Society” é um filme maneirista, que retorce as formas aperfeiçoadas ao longo de sua carreira – a encenação rigorosa, invisível, quase em função do texto – e as devolve sob uma chave mais visual, onde as palavras dividem sentido com a luz mais expressiva, as cores fortes, a estilização dos cenários, os movimentos de câmera mais elaborados, os planos mais longos – e não há como não ver uma certa ironia na escolha do “mago da luz” Storaro para fotografar seu primeiro filme digital. A nostalgia por uma época não vivida (a luz dourada para a “era de ouro” dos estúdios), as personagens de Diane Keaton encarnadas numa apaixonante Kirsten Stewart, as histórias de amores que poderiam ter sido – tanto do mesmo, só que novo. Revisionismo e recomeço.

 

 

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13. Invocação do Mal 2 (James Wan)

Comentado AQUI

 

 

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12. A Vizinhança do Tigre (Affonso Uchoa)

Um filme que transborda um senso de comunidade – não só pelos gestos de camaradagem, mas pela relação de troca entre câmera e objeto filmado (aqueles jovens não são observados com uma “distância crítica”, muito menos vitimizados: estão à altura de nosso olhar, que os acompanha, são nossos parceiros), entre diretor e atores – que, interpretando eles próprios, interagem na criação das falas, se mostram ao mesmo tempo que revelam uma versão de suas próprias imagens. São tão diretores quanto Affonso Uchoa, que por sua vez entrega um filme político sem reduzí-lo a mensagens e soluções conciliadoras, da mesma forma que, evitando a estetização da pobreza ou a “macumba pra turista” atinge, graças a energia e as sensações que transmite, o status de obra universal.

 

 

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11. Dois Rémi, Dois (Pierre Léon)

Uma pequena grande fábula sobre o não pertencimento, sobre viver uma rotina repetitiva, norteada por convenções sociais, pela necessidade de se mostrar pro-ativo, de buscar o sucesso acima de tudo. A era da drenagem do sentido da existência, da perda da individualidade: o duplo de Rémi é a projeção de uma identidade que a sociedade lhe exige, e a luta para superá-lo é a luta (e a dor) pelo despertar de uma consciência contra a monotonia, contra uma vida vivida no automático. É muito engraçado e também muito triste, de uma enorme generosidade com os personagens mas também com cada elemento em cena – a luz, o décor, os sons, tudo tem uma clara identidade narrativa e visual. Um filme de olhos livres, um alento em meio a atual cultura de empreendedorismo, competitividade, stress e burn-out.

 

 

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10. Cemitério de Esplendor (Apichatpong Weerasethakul)

A manobra de Apichatpong, basicamente a de jogar todo elemento fantástico para o fora de campo – os soldados narcolépticos que, numa das poucas cenas com presenças sobrenaturais, são avisados de que não sairão deste estado pois o hospital em que se encontram era um templo e os espíritos de reis estão usando sua energia para lutar em outras dimensões (mas ficamos visualmente apenas com o materialismo dos soldados e das enfermeiras que cuidam dos mesmos) – ao mesmo tempo quebra as expectativas e tira o filme da sombra de “Tio Boonmee”; trata-se portanto (e assim como todos os seus filmes) de um trabalho que absorve algo de seu antecessor e o entrega sob uma nova luz, com outras observações e experiências. Uma obra em constante diálogo, evolução e movimento.

 

 

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9. Carol (Todd Haynes)

A projeção do amor e do desejo. A fotografia, via de comunicação da protagonista com o mundo que vê, é representada na imagem, seja no grão da película 16mm ou na caracterização daquele universo, que deve sim ao imagético Sirkiano habitual na carreira de Todd Haynes, mas também às cores e composições de William Eggleston e Vivian Maier. Se há um excesso na caracterização de Carol, este vem pela idealização do olhar de Therese, mas sua essência vem dos gestos – das mãos de Cate Blanchett, que tocam os ombros da amada num movimento dobrado (e reforçado) pela narrativa, resignação e esperança concentrados num só quadro, reiterados pelos olhares dos últimos planos, dos mais belos que o cinema nos deu no ano que passou.

 

 

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8. Romance à Francesa (Emmanuel Mouret)

Emmanuel Mouret segue erigindo sua persona sob o signo do humor físico de um Tati ou Chaplin, mas aqui investe numa tristeza típica do segundo (o caminhar da saída do hospital para a penumbra é exemplar) – especialmente no olhar melancólico e no peso que os ombros parecem carregar. Desarranjos amorosos, traição, encontros e desencontros, o sexo que sempre se insinua mas é empurrado para as elipses: “Caprice” é quase uma comédia da Hollywood pré-código, com o ritmo dos filmes do início da década de 30, um olhar apurado para os atores, os gestos, os personagens, o rigor das formas, do quadro. A beleza das mulheres e o brilho nos olhos dos homens que as observam. Uma trama romanesca que oscila com leveza entre o acaso, a ilusão e a incerteza em nossas escolhas. O amor e suas contradições.

 

 

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7. Os Campos Voltarão (Ermanno Olmi)

A vastidão da paisagem natural que circunda aqueles homens presos numa trincheira é a vida que lhes é privada, que eles podem vislumbrar e sonhar, mas não podem alcançar. Não é um filme de guerra, é um filme sobre (e contrário a) ela: sobre homens a mercê de ordens, que por toda sua duração esperam por algo que está por acontecer – seria quase Hawksiano, não fosse pelo fato de que ao invés de criarem laços e lutarem heroicamente por aquele espaço, temem pela morte e têm na esperança por ordens de retirada a única coisa que os une. Esperança em ter de volta suas casas, suas famílias, suas vidas. Um raro exemplo de fotografia digital genuína, com as cores abafadas trazendo ao mesmo tempo um tom de sobriedade e sonho – lembranças de experiências sofridas, esquecidas como a neve daqueles campos a derreter.

 

 

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6. Os Oito Odiados (Quentin Tarantino)

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5. Sully – O Herói do Rio Hudson (Clint Eastwood)

A primeira imagem que temos do capitão Sullenberger é a de um close, desperto de um pesadelo, com o chiaroscuro típico do homem Eastwoodiano – um homem em conflito existencial, entre dúvida do trabalho bem feito ou precipitado, os holofotes da tv e da imprensa e o inquérito aberto pela NTSB, a imagem de herói que lhe é lançada e o fracasso que o incidente pode implicar em sua carreira. “I just want myself back”, diz em certo ponto. Ao pormenorizar uma imagem mitificada (a do avião boiando no rio) e os depoimentos dos participantes, o filme faz um uso brilhante do tempo, distribuindo os três minutos que marcaram o evento por diversos ângulos ao longo de sua duração, cada vez trazendo novas informações e empurrando a narrativa. Um filme que ganha em complexidade e nuances a cada revisão, e este é um dos maiores êxitos que uma obra pode alcançar.

 

 

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4. A Assassina (Hou Hsiao-Hsien)

O wu-xia (gênero que mistura fantasia e artes marciais) em versão opiácea. Já para o final do filme, numa reunião, um conselheiro conversa com o príncipe, enquanto a câmera vai lentamente se afastando e o volume do diálogo diminuindo, até se tornar inaudível – um indício de que, por mais que desenrole uma narrativa, o interesse de Hou está no olhar, na forma de observar placidamente a matéria, a presença dos quatro elementos – com destaque para o fogo e especialmente para o ar: praticamente todas as cenas começam e/ou terminam com o balançar de folhas, de cortinas, lençois e vestidos; com a dança da chama das velas, tochas e lampiões; com o movimento das nuvens, da fumaça ou da neblina – sugerindo a resiliência de Yinniang, a assassina do título. O filme mais bonito do ano.

 

 

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3. Elle (Paul Verhoeven)

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2. Certo Agora, Errado Antes (Hong Sang-Soo)

Aproxima-se de “A Visitante Francesa” na intervenção do aparato dentro da narrativa (o filme anunciando-se como tal quando do aviso de que uma situação será reencenada), mas a temática da variação de uma mesma imagem/tema está no centro de todos os seus filmes. Pedro Costa recentemente alegou que Hong “assumiu o lugar que um dia foi de Woody Allen”, mas gostaria de adicionar que seu cinema também vai ao encontro dos de Eric Rohmer e Yasujiro Ozu: do primeiro, a capacidade de capturar a incerteza dos encontros, a desorientação dos momentos que antecedem o primeiro beijo; do segundo, a atenção para o gestual, detalhes do cidadão oriental e a ênfase na forma dentro da repetição de uma cena. De ambos, a falsa impressão de simplicidade e o crescimento dos filmes a cada revisão. Seu melhor nesta década, o que não é pouco.

 

 

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1. Paz Para Nós Em Nossos Sonhos (Sharunas Bartas)

A materialização da ausência: se o cinema perpetua fantasmas em celulóide, Sharunas Bartas aqui faz da morte da ex-esposa uma presença constante. Cada quadro está carregado com essa perda, e quando em dado momento o diretor/ator chama a filha para ver um vídeo caseiro da mãe, a imagem da tv toma a tela e entramos numa espécie de mise-en-abyme da própria vida. Esta relação da imagem com a percepção da realidade, elemento próprio do cinema, é explorado de maneira exemplar, e de forma Garreliana pai e filha conversam sobre os as dores, dúvidas e angústias que a perda da mãe/esposa e a própria existência lhes impõem, numa espécie de terapia documentada. A busca pela conciliação, porém, encontra mais força no isolamento de cada personagem e sua relação com o espaço – e assim, fixando o olhar no micro, o filme abre um panorama sobre a existência que outros de maior ambição almejam e naufragam. A natureza se encarrega de dar conta de uma comunicação fragmentada, as paisagens são ecoadas nos rostos – e há tempos não se vêem rostos tão belamente registrados, cada um deles uma narrativa, uma tragédia, um universo em si. Quando a imagem reflete realidade e ficção, matéria e espírito, paz e violência, lucidez e sonho, amor e dor, a experiência cinematográfica está próxima da plenitude. Filme do ano.

 

 

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